Blog do Edilson


27/06/2011


Romance

Os Melhores sonhos são aqueles em que vivemos acordados... Será?

Leia o conto "Caicul" e depois me fale!

Escrito por Edilson Fernandes às 17h52
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Caicul

Caicul

Por Edilson F.P. da Silva

As sensações eram incríveis, tudo era grande e pequeno ao mesmo tempo, o sol estava deliciosamente gelado e a chuva refrescantemente quente, uma abelha gigante surgiu do nada, me ofereceu mel numa taça de porcelana caindo de um bule de jade... Deus!Que sabor era aquele... Sem igual! Olhei para baixo enquanto o dócil inseto se afastava, era como se eu estivesse sobre um piso de vidro transparente pouco abaixo das nuvens pairando sobre  plantações de  flores de pétalas com aspecto de asas de borboleta do tamanho de edredons, uma brisa morna trouxe aquele perfume... Indescritível! Para você ter uma idéia o aroma que mais se aproxima é o de pinho com o orvalho matutino, mas é uma comparação pífia. No horizonte a aurora cintilava modulando ondas com todas as cores do espectro luminoso... ...Elas  estavam  absurdamente lindas. Senti como se uma mão gigante acolhesse meu corpo em sua palma. Uma pétala das flores dos campos abaixo voou por entre os grandes dedos que mais pareciam portais e acobertou  meu corpo, que agora percebi,  estava nua. A suavidade do contato da pétala gigante que envolvia meu corpo como um casulo se comparava ao mais delicado tecido, era como se um veludo mil vezes mais macio acariciasse minha pele castigada. Em seguida a mão se revelou um enorme colo e me embalou o que fez me sentir segura e feliz como nunca havia sentido, tentei olhar o rosto  que voava comigo nos braços. Sem sucesso! Um frisson percorreu meu corpo, outra sensação, desta vez mais intensa, me dominou, ruborizei e vi meu lábios crescerem e tomarem vida suplicando pelos lábios de meu condutor.

Acordei encolhida e embaraçosamente... bem, não sei explicar! Corri para o banheiro e apesar do frio matinal, encarei um banho gelado, precisava me controlar. No café do hotel encontrei minha amiga de trabalho. “Puxa amiga, tá quase na hora de começar o congresso!”, muito sem jeito eu disse, “Dormi demais!”, “Hãhã! Eu percebi”, “Como Assim?” indaguei enquanto virava um pote inteiro de mel em minha torrada. Ela disse que durante a noite eu gargalhava e vez por outra gemia, até que tomou coragem  e espiou para ver o que me fazia tão feliz, percebendo que não havia ninguém ela abriu um pouco a porta e pode ver melhor meu estado, chegou perto e cobriu meu corpo despido. Ralhou comigo, pois tropeçou em meu sutiã caindo por cima de minhas malas, “Não sei como não acordou, Que sonho bom hein amiga? Quem era o gato?”.

“Nossa! Mas eu..., quer dizer..., não entendo!”, “O quê amiga?”, “Eu tive um sonho estranho sim, mas quem estava gemendo, digo, berrando! Era você!”, “Iiii! Viajô  hein!!!” respondeu meio que disfarçando, “Sério menina! Desculpe, mas eu é quem fui até seu quarto pra pedir pra você maneirar, bati e logo em seguida você parou, achei até que estava com  aquele bonitinho de ontem a noite  lembra?”, “Imagina amiga! Esqueceu que fomos dormir juntas depois do bar? E além de tudo o cara era gay! Eu hein?”, “Há Sei lá!”, “Eieiei! Manera no mel amiga”, “Nossa é mesmo! Ououou! E você? Manera no chocolate menina!”.

Tentei esquecer tudo usando a maratona de palestras como muletas. Tentei! Juro que tentei, mas foi em vão! Levei várias broncas de minha amiga, meu olhar estava absorto no nada, meu íntimo sorvia a espera do véu da noite como o único universo possível. Racionalmente falando eu me desculpava procurando uma lógica no caos... ...Quanta inocência de minha parte!

  Estava na fila do almoço, um batalhão de pessoas disputavam pratos saladas e lugares... “Oi filhaaaa!”, havia esquecido de falar com a minha pequerrucha e então ela me ligou. Sem crise! Depois de alguns minutos entre equilibrando o prato e o celular no ombro ela disse despedindo... “Mãe! Traz um anjo de chocolate?”, “O quê?”, “Um anjo de chocolate! Me traz?”, “Filha! Onde vou achar um anjo de chocolate aqui?”, “Pede pra tia ela me prometeu!”, virei pra minha amiga e perguntei, “Oh Menina! Você prometeu chocolate pra pequerrucha?”, “Eeeu? Claro que não!”. Eu disse ainda que a idéia dela era por conta de um sonho com um anjo de chocolate e conforme eu contava o sonho ela arregalava os olhos, no final completou quase murmurando, “É muita coincidência!”, no entanto, aceitou levar chocolates para minha filha.  Foi só mais tarde que reparei que ela estava com uma caixa de bombons na bolsa quais comia quase sem perceber, isto depois de devorar um petit gateou com bolas de sorvete e chantili de chocolate.

Desliguei o celular e como malabarista guardei-o na bolsa, foi quando senti uma mão pesar meu ombro desnudo inutilmente coberto pela alça de minha camiseta, o que deixava a mostra uma tatuagem de pitangas, homenagem feita a meu marido por ocasião de nosso casamento. Através daquele toque senti a suavidade  da pétala daquela estranha flor de meu sonho. Senti! E me lembrei de cada momento qual uma pedra no fundo de uma cachoeira que recebe de uma só vez  as águas das boas memórias trazidas  do rio da vida. Um zumbido se fez, pensei ser o farfalhar das asas da grande abelha, meu coração bateu desesperado, tudo era real! Que mão era aquela, de quem era, por que eu fiquei assim? “Tudo bem amiga?”, “Você viu? Você viu?”, “O quê?” respondeu minha amiga com ar indiferente e distante. Não tem coisa mais frustrante do que tentar compartilhar um sonho... Mais frustrante ainda é tentar entender o sonhar.

 Tive uma paz relativa na parte da tarde, me envolvi com as atividades do congresso, se é que ficar ouvindo uma pessoa falar por seis horas a fio pode se chamar de atividade. Eu disse relativa porque minha amiga não parava de comer chocolates e eu achei aquilo muito perturbador. “Você não esta comendo muito chocolate, Menina?”, “Ah! Sei lá!”, a cara de prazer que ela fez enquanto mordia aquele bombom despertou olhares vizinhos.

 Depois da janta voltei para o quarto, liguei para o Di, meu marido, foi estranho eu o amo... ou... ou sei lá! Estou confusa! Em seguida  falei com a pequerrucha que mais uma vez me veio com a conversa do tal anjo de chocolate, o difícil ia ser achar um... não! O difícil foi explicar para o  Di minha irritante indiferença ao telefone. “Você nunca deixou de dizer que me ama, eu nunca precisei pedir”, disse ele no final da ligação.

 “Vamos descer para o bar?”, “Sei lá! Acho que não! Acho que vou dormir, nosso voo sai muito cedo” respondi, mas de verdade queria sonhar uma vez mais. Acabei descendo, com a promessa que voltaria logo, sentamos numa mesa ao ar livre, mal havia me acomodado quando senti o perfume do sonho da noite anterior penetrar em meu cérebro, e hipnotizada pelo suave odor chegado a fragrância  pinho amadeirada caminhei pelo local até parar de fronte a uma das mesa, minha amiga veio atrás, passou por mim e sentou em frente ao rapaz que estava ao lado dele e  enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo ela disse “De que Diretoria Regional vocês são...”, Ela não disfarçava o entusiasmo, nunca  tinha a visto assim tão radiante e verdadeira, sem joguetes nem reservas e eu permanecia ali, parada, em pé sem nada dizer. Ele me fitava com seus olhos negros profundos que me cegavam como o sol de meu sonho, o perfume vinha de sua respiração calma e tranqüila, me ofereceu suas mãos com a delicadeza  das pétalas da flor de mil veludos. Tive a certeza que dali em diante poderia morrer  que esta seria de felicidade. Ele se levantou, alto, másculo, feroz e determinado, ao mesmo tempo sereno e delicado, “Nosso quarto é ao lado do deles!” disse a menina toda entusiasmada. Nós dois não falávamos, não era necessário perdermos tempo, somente seguimos o casal de amigos que iam à frente brincando,  dançado e fazendo troça... Ao entrar em nosso quarto o paraíso desceu a terra como os deuses haviam prometido, as paredes se desfizeram em cores que eu nunca tinha visto antes, seus braços fortes me ergueram e depositaram meu corpo numa cama de pétalas de rosas vermelhas que rodopiavam os céus com nuvens banhadas pelos primeiros raios de sol do alvorecer, eu estava embriagada de prazer e me entreguei sem resitência. Eu queria aquilo! Eu sonhei acordada com aquilo! Foi quando conheci o amor dos meus sonhos, foi quando comprei  meu passe para o inferno, me perdoe Di, me perdoe pequerucha, minha alma é fraca! Me digam  quem tem uma alma  tão forte que pudesse resistir?

     Acordei de sobressalto! Corri até a cama da minha amiga que estava desfalecida e seminua denunciando o ocorrido da noite anterior,  “Menina! Acorda! Estamos atrasadas! Vamos logo ou perderemos o voo!”. No check-out a menina perguntou ao recepcionista “Quem estava no quarto 322 ao lado do nosso?”, “Ninguém senhora! O quarto estava vazio!” Nos entre olhamos espantadas e sem pensar sai correndo para o bar e perguntei ao gerente da noite anterior, que estava fechando seu turno, se ele viu a gente e se ele conhecia as pessoas que saíram conosco... “Não! As senhoras estavam sozinhas, sua amiga ria muito e então a certa altura vocês levantaram e se retiraram para seus quartos, me recordo porque a senhora pediu um pote de mel e sua amiga uma caixa de chocolates para levar”.

     Agora estamos aqui, caladas mudas e sem saber o que pensar... “Tem certeza do resultado amiga?”, “Tenho! Ambas estamos grávidas de três meses e a data da concepção coincide com aquela noite no hotel...”, “Eu tinha certeza que era só um sonho maluco!”, “Eu também, amiga! Eu também!...Como vamos explicar tudo isto?”.

 

       “Vejo que ainda anda se aproveitando de humanas inocentes com suas promessas de felicidade não é Caicul?”, “Elas são diferentes! Vão suportar!”, “Sabe porque estou aqui não é?”, “Sim! Eles ainda  me querem não é mesmo? E mandaram você pra me buscar!”, “ E Quanto as  pobres almas que você molestou o Conselho...”, “...Esquece-se de quem sou?”, “De forma alguma  Imperador dos Sonhos!  Seu poder de moldar os desejos noturnos é insuperável, nem eu tenho tal força! No entanto é isto que esta sendo  questionado”, “Você sempre me avisou não é?”, “Sim! E não sei se você vai comovê-los mais uma vez com a historia da perda prematura de seu filho com a Rainha Amor!”, “Ela ainda não quer me ver não é?”, “Não Caicul! E você ainda busca  compensar com  humanos indefesos o que só Lady Amor pôde te dar ! Incrível, pois você foi o único dentre nosso panteão a conquistá-la e saber o que é o amor verdadeiro e o único a perdê-la de forma tão estúpida”, “Então é você quem vai me julgar agora? Deixe disto!  Vamos logo! Um excército  inteiro de Deuses me aguarda, muitas almas humanas e muitos dos nossos desejam minha execução, mas mesmo que consigam ainda sobrará uma última questão... ...Quem velará pelos sonhos de todos! Quem?... ...Por acaso será você Lady Pesadelo?”     Fim     

Escrito por Edilson Fernandes às 17h39
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08/06/2011


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Parabéns  Joana Rodrigues Pereira  Ganhadora  da promoção do dia dos namorados com a frase!
"Amar é ter alguém como testemunha de nossa vida, é provar que nossa história não passou sem ser notada."

Não deixe de ler o conto  que esta abaixo.

Obrigado pela visita.

Escrito por Edilson Fernandes às 11h02
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Aventura

 

"E Sob a luz da Aurora pereceram nossas esperanças! 

E Sob a luz da Aurora nossas almas foram purgadas!"  

Escrito por Edilson Fernandes às 10h35
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O Rosa da Esperança e o Verde da Morte I

O Rosa da Esperança e o Verde da Morte

Por Edilson Fernandes

 

A mim foi deixado esta incumbência, meus olhos se enchem de lágrimas agora, meu coração  esta estraçalhado e a dura e pesada missão de contar o que vivemos nestes tempos não me abandonará! Não posso ficar lamuriando não tenho o direito. Ele sempre dizia “Há mais motivos sérios para chorar do que aqueles quais choramos agora”.

Hoje compreendo... “Crianças! Por favor, crianças! Precisamos terminar as atividades e...”, “Prôfeeee... olha só lá fora que legal!”, “Jilberlâneo! Será que dá pra mudar seu foco de atenção e nos ajudar a terminarmos nossa tarefa de hoje?”, “É sim Prô! Ta mó legal lá fora”, “E o que seria mó legal lá fora, que não seria mó legal nesta aula  hein dona Maria Eduarda?”, “O céu ta verde Prô...”, “Hein????”.

 Todos foram para janela da sala feito lagartixas no vidro olhando o mais belo fenômeno já visto na natureza, só que não fazíamos idéia de que aquele espetáculo era o prenúncio de uma das maiores catástrofes humanas! Bilhões morreriam a seguir.

 Era a Aurora Austral, plenas cinco da tarde de um inverno em 2025, nossos rostos ficaram esverdeados, nosso sorrisos inocentes e a gritaria nos levaram para fora como sinfonia anunciando a chegada de anjos do paraíso. Acabou a força quase simultaneamente, só que não foi só a força que acabou, os celulares ficaram mudos, nossos notes também, os carros pararam, os tablets pifaram, tudo, tudo que era eletrônico e elétrico parou de funcionar, até as luzes de emergência.

Nas ruas todos estavam agitados, apreensivos e nervosos e a coisa piorou quando a noite caiu, não se tinha nenhuma informação, a polícia rondava a pé pedindo calma, mas eles também estavam visivelmente desorientados, lembro-me de minha mãe procurando fósforos para acender o fogão enquanto eu perguntava “Fósforos? Existe isso ainda?” pois nunca tinha visto ela usar um, toda comida perecível estragou no final do primeiro dia, a força não voltaria e então... então mostramos quem realmente somos. “Fina é a pele da civilidade humana” Ele disse certa vez. Bastaram dois dias para que tudo desmoronasse, de primeiro  todos foram solidários e depois começaram os saques, as gangues, os abusos e assassinatos dos mais hediondos! Sim! Não vieram os anjos, nem o paraíso. Vieram os demônios escondidos em nosso ser vislumbrados pelo verde esmeralda da aurora que cegava todos os corações egoístas deste planeta. Forças como a polícia, o exército ou o corpo de bombeiro perderam o controle logo no terceiro dia e foi quando o céu mudou de cor, do verde esmeralda passou a rosa purpúreo, dava pra sentir na alma  e posso dizer que se não fosse a necessidade como a fome ou a sede ficaria olhando o fenômeno até o fim dos tempos... Foi neste dia... Foi neste dia que  todos os adultos morreram, 6 bilhões de almas  das 7 que caminhavam neste planeta morreram como moscas no decorrer daquele dia, um incontável número de bebês e outros humanos dependentes também pereceram por falta de cuidados, por predação e outras formas horríveis de se morrer. Este horror durou semanas, enterrei todos que pude até cansar, até me acostumar com o cheiro de carne podre e disputar pertences dos mortos com as moscas... ...Até sair vagando por aí sem rumo... Até encontrá-los um por um.

Quem conseguiu sobreviver a tudo isto se juntou em bandos esporádicos de crianças com idades variadas até  cerca de doze anos. Ele disse certa vez “Chamávamos as crianças de anjos e que elas herdariam o paraíso, e agora que elas o têm como poderão viver nele?”.  

Procurávamos comida e água até encontrarmos  um bando de  moleques, eles estavam batendo em nós querendo nossas comidas e pertences, já tínhamos passado por isto outras vezes só que agora os moleques queriam mais, queriam nossas vidas... Queriam nossas carnes. Um deles ergueu a faca para pegar a pequena Júlia, que não chorou por nada, ela olhou bem no fundo dos olhos do agressor e disse “Tá felado, Tá felado!” foi quando Ele pegou a mão do moleque como se fosse um boneco de pano atirando-o contra uma parede, assim tirou a faca que perigosamente ameaçava a vida da pequena  Júlia que há muito não sabia o que era o colo de um adulto, e foi com ela, no braço, que falou para os moleques.

“Monstros egoístas! Não aprenderam nada com tudo que aconteceu? Demônios do inferno porque ainda andam por nosso mundo? Sumam covardes e encontrem seu triste destino longe de nossos caminhos.”, vimos os moleques correrem assustados praguejando como cachorros vira-latas.          

Ainda continuou olhando para nós como desabafando “Se Estamos no paraíso quem abriu o portal do inferno liberando estes monstros? Nossa criança você esta fedendo!”, “Felendo?”, “Não Criança hehehe! Fedendo mesmo! Vem! Vamos procurar algo pra gente se limpar!”. E depois disso dividiu sua comida, buscou abrigo para todos e até nos deu seus chocolates. Éramos quinze crianças, a mais velha era eu com doze e a mais nova era a pequena e ranheta Julia de apenas quatro anos. Na manhã seguinte já pegando suas coisas ele nos aconselhou  enquanto distribuía algumas barras de cereais: “Crianças fiquem distante dos bandos e procurem se limpar uma vez ao dia pelo menos! Lembrem-se que um banho por dia trás saúde e alegria! Boa sorte!”

 Julia chorou pela primeira vez, olhamos uns para os outros e corremos atrás da única pessoa que se importou conosco... ...O único adulto que restou. “Crianças! Não posso assumir a responsabilidade de cuidar de vocês e...” Foi a Julia que disse com um largo sorriso abraçando ele com muita força  “Fica com a gente?”,  acho que foi isto que fez ele mudar de idéia nunca saberemos ao certo. “Esta bem vai! Mas se quiserem ficar comigo devem seguir minhas instruções” e sob o primeiro céu azul em meses com  auroras diárias ele ditou suas regras “Nunca abandonarás seu grupo, Respeitarás  seu igual, serás gentil, não reclamarás, trabalharás incansavelmente para o bem do grupo, serás higiênico,  aprenderás com os mais velhos e ensinarás aos mais novos sempre.”

  Suas palavras foram decoradas e repetidas todos os dias para que não esquecêssemos, precisávamos dele, assim como ele precisava de nós. Estávamos tão seguros que voltamos a brincar entre nós e relaxamos um pouco, até a ranhetinha ficou manhosa. Depois de alguns dias ele nos reuniu e disse, “Precisamos de um lugar definitivo onde possamos recomeçar e eu sei onde ele fica, é lá que encontraremos  o maior dos tesouros perdidos”, “Que tesouros Prô?”, “Aquele que somente os puros de alma podem ver, aquele que só um verdadeiro humano deve usufruir”, ficamos nos olhando com carinhas de ué, porém como não tínhamos nenhum plano nem questionamos e se era um tesouro então né! Que fosse... ...”A viagem vai ser longa!”, “Pra casa Prô?” interrompeu a ranhetinha, “É minha filha! Pra casa! Precisaremos de algumas coisas para a viagem, viajaremos a noite e descansaremos de dia, calculo que a viagem durará cerca de 60 dias, passaremos por locais desconhecidos e perigosos.” Ele nos dividiu em dois grupos, um para juntar comida e água, e outro para buscar ferramentas e agasalhos. Eu fiquei liderando o grupo para juntar comida e ele com o outro. Na preparação nós aplicamos tudo que ele ensinou, aliás, eu não disse, além do básico, no tempo  que ficamos com ele,  nós treinamos lutas, fuga, observação, aproximação furtiva e tudo mais, a Julia ranheta adorava aprender estas coisas ...todos nós adorávamos.

   Ele estava apreensivo durante a viagem, sempre pedia para pedalarmos  em  silêncio, estávamos indo de bike e consegui-las foi uma outra história.

    “A dor é irmã da conquista, o mais fácil é desistir ante a estaca doce do desânimo”,  foi quando o Gú sumiu que ele disse isto, o menino estava chateado depois que ele lhe deu uma bronca por conta de uma vacilada. O que o moleque queria era a atenção dele, mas não daquele jeito, então ele foi embora aí eu fui até Ele  que me respondeu. “Não sou pastor e nem vocês são ovelhas, todavia ainda precisamos dar o benefício da escolha até para a mais conturbada das mentes.  Você fica aqui com as crianças e o Marcelinho vem comigo, se não voltarmos em dois dias sigam para o norte como te ensinei que te alcançaremos em seguida”, O sol estava a pino, auroras verdes e rosas davam sinais aqui e ali, era comum vê-las tais como  tempestades no verão.

    Os dois chegaram a noitinha a uma cidade após haverem rastreado as pistas deixadas por Gú, “Havendo vida há indícios, basta olharmos para os lugares certos e poderemos ouvir seus rastros”. Com cuidado foram se esgueirando procurando evitar os bandos de garotos observando se viam o Gustavinho. “A surpresa é a arma dos melhores predadores”.

     E Então eles o viram sendo levado amarrado e arrastado pelo mesmo bando de moleques canibais que nos atacaram outro dia, eles os seguiram até que entraram numa fábrica  “Mantenha-se calmo ante a tempestade” disse ele ao Marcelinho, já era  noite alta e os dois se aproximaram, Marcelinho se mostrou um ótimo aluno ao aplicar as técnicas dadas por Ele, até que... “Eu sabia que você viria atrás do moleque!”, era o chefe do bando e desta vez ele tinha uma arma na mão conseguida com o Gú, aliás a briga entre  o Gú e Ele era por conta de que o Gú tinha tirado a arma do coldre de um policial morto quando dava umas das suas escapadas. Estas escapadas também entraram na briga “O que esta na sua mão garoto! Serve pra mostrar com os seus próprios dedos,  o erro de quem a aponta”.  Assim a arma  apontada  pra cabeça dele tinha vindo do Gú!

 Foram amarrados e pendurados sobre uma baia com um cão pitbull faminto latindo sem parar logo abaixo deles. A voz afeminada do chefe do bando ecoou, “ Tá vendo o cão? Ele não come há três dias e vamos alimentá-lo. Não se preocupe, não vou comer você é que não quero me contaminar com seu sangue ruim, Sr Adulto! Porque se você não morreu  deve ser por causa de seu sangue ruim e minha mãe sempre falava que coisa ruim num morre”, Ele ficou olhando sem nada falar e os outros seguiram seu exemplo “Fique quieto e terá uma chance de sobreviver”, e o líder continuou “Estamos seguindo vocês a dias, viu as bikes lá fora? Pois é! Estávamos indo bem até que este enxerido aí nos achou e o resto vocês já sabem! Quero saber para onde estão indo? E Não minta porque o moleque disse que vocês vão atrás de um tesouro?! Papo reto vai!”, “O tesouro? É o tesouro do homem, é para quem pode ouvi-lo, para quem pode vê-lo, para quem pode cheirá-lo, é para quem pode senti-lo e trabalhá-lo,  seguramente não é para vocês”. Ninguém sabia mais detalhes, só ele, assim o lider canibal foi abaixando a corda dele exigindo a resposta, o cão ladrava e ladrava, até que a corda se soltou e o Prô caiu dentro da baia, os moleques do bando foram até a borda e a cena que todos viram foi espetacular, Ele segurava com as duas mãos livres o pescoço do cachorro que ficou deitado no chão por algum tempo, depois ele pegou o pitbull e o jogou para cima do líder, que deixou cair arma no chão pois ficou tão ofuscado com a cena que esqueceu de usá-la, o cão saiu correndo atrás dele e de outros garotos do bando que fugiram feito galinhas, em seguida subiu e libertou os dois, o Gustavinho e o Marcelinho. Foram para a saída, mas não antes dele entregar a arma para o Gú e dizer “Entende agora?”, Gú só olhou de volta e acenou positivamente, se aproximou de um riacho e jogou a arma lá.

Ouviam os latidos agressivos e correram até chegar ao cão faminto prestes a atacar, o líder que se amontoou num canto gritava como louco, foi o assovio trinado dele que fez o cão parar, ele se abaixou estendeu a mão e ofereceu comida para o animal, “Aprendei demônio sem coração, a covardia é tua mãe, o medo o teu pai e ambos serão tua ruína.”, viraram as costas e saíram voltando para nós. Marcelinho perguntou, “Porque não o matamos Prô?”, “Porque os mataríamos?”, “Eles ainda podem nos seguir!” disse Gú, “Sim! Mas vocês não acham que já tivemos mortes demais ultimamente? Vem! Vamos embora, a jornada ainda é longa!”. Muitas perguntas vieram pelo caminho, como ele conseguiu se livrar? Como ele domou o cachorro, que agora os acompanhavam? A resposta foi apenas um sorriso de canto de boca e o silêncio.

 

Escrito por Edilson Fernandes às 10h16
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O Rosa da Esperança e o Verde da Morte II

Epílogo -

A Aurora austral brilhava forte de novo, sabíamos por conta da tonalidade que mudava de verde esmeralda para um rosa púrpura intenso, foi quando eu caí doente. Não fazia idéia do que eu tinha, a Julia se destacou por tentar me dar todo tipo de remédio que ela lembrava o nome, chorou e adormeceu ao meu lado com medo de que eu pudesse morrer...  Eu estava com muito medo também. “O Prô vai chegar e ele vai te salvar!” dizia ela acariciando meus cabelos, todos faziam o que podiam,  foi quando eu me dei conta... meu aniversário foi no dia que eles foram atrás do Gú! Eu não falei nada pra ninguém, mas estava condenada, no  dia seguinte tive a segunda menstruação da minha vida desde a menarca,   tentava me controlar no entanto a dor era tremenda, eu me dei conta que me tornei adulta. A certa altura de meu sofrimento pensei que seria melhor assim, o mundo seria melhor sem adultos, o mundo seria melhor sem mim então segurei a dor e esperei a morte me convidar para dançar uma última música... pois é! Há quanto tempo eu não ouço uma música, de repente a Julia renheta começou a cantar pra mim, “Boi! Boi! Boi! Boi da cala pleta! Pega esta doença que te medo de caleta! Ela me fez sorrir e fez a todos em volta também. Neste exato momento eles chegaram e quase sem fôlego todos agarram-no pedindo que me ajudasse. Obvio que quase mataram o Gú, mas isto é detalhe!

“Você já é adulta não é?”, “Acho que sim”, “Tá dando pra ver... e sentir! Num falei pra vocês tomarem banho frequentemente?”, “Mas é que ficamos cuidando dela!” disse a Julia abraçando Ele, “Jú! Me faz um favor filhota! Vão tomar um bom banho, por amor a Deus tá! Enquanto isto eu cuido dela!”, “Todos entenderam a mensagem e saíram atrás de água para se banharem, era seguro ali, sem bandos ou gangues então ele se voltou para mim. “Você podia ter pedido para eles tomarem banho pelo menos né!”, “Não sei se você percebeu mas eu estou tentando sobreviver aqui!”, “Humpf!”, “Eu sei o que você esta pensando, já sou adulta e houve uma tempestade cor de rosa, estou para mor...”, “...Fique quieta, você vai ficar boa, eu prometo” , foi aí que eu mostrei a enorme ferida em minhas costas , o primeiro sinal que nada ia bem. “Criançada juntem tudo vamos partir! Gú , Marcelinho! Façam uma carroça com as bicicletas e coloquem ela nela, teremos que pedalar rápido! Júlia você vem na minha bike, temos pouco tempo!”. Ninguém  questionou ou falou alguma coisa, em pouco tempo estávamos na estrada de asfalto, coisa que ele sempre evitava, pedalávamos muito rápido. Chegamos no portal de uma cidade  e ele parou, nos acomodou deu instruções para montarmos acampamento em um lugar seguro e aguardar, pegou o Gú, o Má, o Jarrão e  o Zion, recém e faminto cachorro cujo nome fora dado por mim. Seguimos para a cidade.

O Tom negro na  noite só era quebrado pela sinfonia verde da aurora, era costume dos bandos ficarem a espreita de crianças desavisadas para serem atacadas, “Pedalem como nunca pedalaram na vida, pedalem pela vida dela! Vamos!” e os meninos pedalaram , para o Zion  aquilo era uma festa uma conquista de novos territórios, quando ele sentia algum perigo atacava sem dó, pelas minhas contas foram dois ou três bandos de moleques que tivemos de enfrentar para abrir caminho.  Nunca ele tinha autorizado usar lanternas de velas fora de um perímetro seguro, ele se arriscou muito, mas não tínhamos tempo. “Jarrão! Pegue o Zion e tranque todas as portas e entradas o máximo possível! Marcelinho! guarde o hospital a partir do teto, como treinamos, Gú! Vem comigo!”. Foram ordens claras e precisas que vieram, o Gú não questionava como de costume, sabia  que de tudo aquilo dependia  minha vida.

Luzes de vela e archotes iluminavam como farol o hospital, ele tinha  tentado de tudo , até achou um kit de cirurgia, que logo jogou fora, nenhum remédio havia ali. Sentou um tempo ao meu lado segurando minha mão sem nada falar, era como ele ficava quando não tinha as respostas para as coisas,  “Não se preocupe eu vou ficar bem!”, “Vai sim querida... vai sim!”, Vi seus olhos marejarem quando a luz das velas cintilaram nas lágrimas. “Prô! Tá cheio de gangues lá fora e a Aurora tá ficando rosa de novo”, “Brigado cara! Pegue o Jarrão e o Zion e tente impedir a entrada deles o máximo que puder”, “Já è!”. Eu Tentei amenizar as coisas, “Sabe Prô! Mesmo não sendo de meu sangue você é como um pai para mim, quero lhe agradecer por isso!”, “O que disse?” , “Você é como um pai para mim!”, “Não! A história do sangue, como não pensei nisto?”, Ele saiu e logo voltou com um kit de exame de sangue, tirou um pouco do meu e depois tirou o dele para em seguida fazer um teste e por sorte ele era O  e eu AB, em seguida pegou uma seringa e tirou um pouco do seu sangue e o colocou em mim. Enquanto isto acontecia os meninos batalhavam com muitos outros que tentavam entrar no hospital. “O que importa é qualidade do ataque e não quantidade de atacantes”.

A aurora estava rosa, Ele esta suando e cheio de sangue quando acordei, os meninos olharam para mim e sorriram dizendo, acabou! Ao meu lado estava Zion, deitado na maca comigo, “O cachorro trabalhou muito, ele merece descansar! Você esta bem? Nos deu um grande susto sabia?”, Ninguém nunca me falou o que houve, perguntei a Gú e ele respondeu “Você não vai querer saber! Deixe tudo como esta,  esta salva agora e isto é o que importa”, o guri sorriu pra mim e acenou para que eu pudesse descansar, não quis entender quando Ele disse “Nunca caminhe por um pântano com calças brancas, você vai se sujar!”

Não sei o porquê, mas a  transfusão de sangue me fez sentir melhor, deu certo e é o que basta!

Aos poucos fui me recuperando, voltei a pedalar e acompanhar o grupo, junto comigo  Zion foi ficando mais forte e mais bonito.

Por dias pedalamos, estávamos exaustos, mas determinados, Julia era a mais forte neste quesito “Vamos! Vamos!”, dizia sempre.

A aurora estava muito intensa e mais rosa que o normal naquele dia, chegava a quase vermelho, era lindo embora fatal aos adultos ou aos que estivessem chegando nesta fase. Fui abençoada por Ele, seu sangue agora era meu e isto me salvara, isto poderá salvar os outros também, “Devemos estudar com afinco o que nos é desconhecido”.

 Há dias tínhamos nos afastado das rotas das cidades, atravessamos matas e campos abertos, paramos para descansar, era madrugada e estava toda iluminada como disse á pouco, ele seguiu até o alto de um morro e ficou lá por algumas horas, sua sombra se confundia com as luzes noturnas e um monumento aos nossos olhos se fez naquela hora.  “Tá chamando a gente vamos lá ver!”, subimos correndo e nos deparamos com um vale todo gramado, árvores verdes e cheias de frutos balançavam ao vento matinal, um riacho cruzava o meio do vale, algumas vacas e cavalos pastavam aqui e ali, um  lago sustentava uma bruma branca como algodão,  havia o cheiro de orvalho e os pássaros cantavam e pela primeira vez em meses ele sorriu, Julia de mãos com ele disse “Chegamos?”, “Chegamos minha filha! Chegamos! Este é nosso tesouro, pena que temos demônios a exorcizar.”,  ele olhou para trás ao mesmo tempo que zion se colocou em guarda e gritou para as árvores  “Podem sair de seus esconderijos moleques serpentes! Sei que nos espreitam esperando para dar o bote final”, gelamos de medo, entretanto ficamos em formação de combate sabíamos que era nosso último confronto, o moleque líder do grupo se adiantou do bando desordenado e falou,  “Então é aqui que se esconde o tal tesouro e ele será dos herdeiros da terra... Nós!”, “Ele é nosso seu bobão!” remendou a ranhetinha atrevida, “Vocês não aprenderam ainda, e não aprenderão, poderíamos juntos usá-lo, mas seu egoísmo e sua forma equivocada de ver a vida nos forçará ao confronto.”, “Aí tiozão! Nós vimos do quê vocês são capazes de fazer lá na cidade e desta vez estamos preparados, vocês não são mais humanos do que nós então obrigado por nos deixar limpar a sujeira!”, “Abutres sem alma, como ousam...”, os moleques  gritaram e vieram pra cima, eles portavam lanças, Zion atacou com muita ferocidade defendendo a Julia que surpreendia por sua coragem e valentia apesar da pouquíssima idade, eles eram superiores em número e não tinham muita variação de idade. Nós tínhamos sido bem treinados, naquela manhã o céu ficou vermelho e a terra daquela mata também e para nossa surpresa em determinado momento o garoto líder do bando e todos os outros caíram como moscas se contorcendo de dor, eu também passei mal, mas estava bem e agora entendia o porque que Ele disse para não os matarmos,  apenas  imobilizá-los. Estavam condenados como eu estive outro dia. “Recuem crianças, não somos como eles, não chutamos cachorro morto!”. Todos nós, inclusive Zion, voltamos sem nenhuma baixa, só machucados e com arranhões,  ao ver que estávamos bem se agachou junto ao líder e disse “Até demônios como vocês devem ter uma chance! Posso salvá-los e...”, “Vai se ferrar seu adulto de merda, cala boca a gente sabe se virar, ou você acha que comemos carne humana porquê, e se preparem pois quando melhorarmos você serão nossas próximas refeições...!”,” Há dias vocês não comem carne fresca não? Agora estão longe das cidades, longe das crianças desavisadas, hoje a aurora esta no auge de novo  e sua morte será certa”, dito isto olhou para nós e continuou “Crianças! Separem aqueles que quiserem ajuda e deixem os outros a sua própria sorte, só podemos ajudar quem quer ser ajudado!”, ninguém aceitou nossa ajuda... e de verdade? Não nos esforçamos como ele, e assim os nojentos moleques canibais morreram sem que nenhum remorso nos abatesse! Então os enterramos. 

O céu ficou azul de anil, sem nenhuma nuvem, seus raios brincavam pelas copas das árvores das quais colhíamos seus frutos doces, “Vamos acampar aqui?” perguntou Gustavo, “Não meu garoto não será necessário!”, Ele saiu correndo direto para uma mata no sopé de uma colina do lado oposto do vale, corremos atrás dele como patinhos seguindo a mãe e lá entre árvores e arbustos havia uma estrada de terra,  no fim dela uma cerca antecedia uma enorme porta encravada numa rocha toda escarpada, podíamos ver que estava intocada neste tempo todo, um vigia adulto estava morto há meses caído na guarita, pude ver uma placa onde estava escrito “EMBRAPA - Banco de Sementes - Abrigo 73”. Ele empurrou o portão, abriu a porta e disse “Venham temos que cultivar nosso tesouro!”, nos olhamos, sorrimos e recomeçamos a viver, faremos outro futuro, ainda bem que ele esta conosco o único adulto que sobrou, o último professor do mundo.   FIM...    ...Ou Começo?                                     

 

 

                

 

                                    

                     

Escrito por Edilson Fernandes às 10h11
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