Blog do Edilson


05/08/2011


Aventura

Você sabe quando um menino se torna um homem?

E o que é ser homem?

Baseado em fatos reais. 

Escrito por Edilson Fernandes às 17h13
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As de Copas

As de Copas 

No início do inverno da década de 70, a tardinha já vinha caindo com aquele sol frio de inverno, a secura do ar trazia o cheiro de milho torrado na fogueira, aqui e ali galinhas ciscavam  uma  ou outra quirera perdida no terreiro. Apoiado com o braço no cabo da enxada que lhe servia de muleta, o menino Zinho As de Copas, cujo apelido fora conseguido por conta da sua fama de “Ter fogo no as de copas”, observa da cerca de arame de sua casa  a molecada brincando de bola no campinho. “Vem Brincá Zinho!”, gritou  um dos amiguinhos, “Posso não! Tô de castigo”, devolveu o triste menino.

Seu pai, Seu Zé da Palha, era  homem severo, respeitado e temente a Deus, vivia tentando dar tenência ao moleque Zinho que todo dia aprontava das suas, tanto que estava de castigo por conta de enganar seu irmão mais velho, em um ano apenas, fazendo ele comer um téquinho de carne de sapo pensando que era rã, o pobre foi até parar no postinho do tanto que vomitava de nojo. “Zinho, Zinho! Sapo tem veneno moleque, podia ter matado seu irmão!”, disse o Dr. Tílio, médico local. “Próxima vez que você me aprontar seu moleque desarvorado, eu juro pela alma da tua mãe, que há de estar no céu, que eu te mato tirando seu fígado com uma concha seu filha duma...”, “Calma Seu Zé, ele é só um moleque ainda”, “Moleque nada Dr., isso é desde quando ele nasceu, lembra?  O Sr. disse no parto da Norminha que era ele ou ela, só um dos dois sobreviveria e a Norminha fez eu jurar por Nossasenhoraaparecida que seria ele Dr., o Sr. lembra! Este moleque é coisa do Duba dubá, o Pé Preto, o Tinhoso, Carcará... É dele que este ai é filho!” e olhando severamente repetiu, “Te mato! E te mato com gosto seu moleque!”      

A surra foi certa, mas nem  capinar a roça de milho por um mês foi pior do quê ouvir da boca de seu pai, “Acho que ele falou sério desta vez!” pensou chorando a falta da mãe que nunca havia conhecido.

Zinho tinha espírito independente, fazia o que dava na telha sem medir consequências e por conta de sua rebeldia, largou a enxada  dando de ombros como sempre fazia quando resolvia fazer alguma traquinagem, “Vou apanhar de qualquer jeito mesmo”, retrucou, “E meu pai tá na cidade, nunca que ele vai ficar sabendo, fico de olho  na estrada e corro pra roça mó dele não me pegá!” pensou o ardiloso Zinho enquanto pulava a cerca de arame farpado.

Dito e feito! O pai do menino apontou na estrada e o irmão de Zinho, que tinha se juntado ao jogo  deu o alarme, “O pai! O pai!” , os dois saíram correndo para dar cabo do plano  “ E você não me dê nem um pio viu!”, “Falo não! E só pra não sobrar pra mim!”,   os dois deram pinote até a cerca com o Quinho na frente e este se apoiou no mourão que eles sempre usavam pra cortar caminho,  foi neste momento que Zinho As de Copas aprontou de novo. Vendo que não daria tempo de seu pai vê-lo do lado de lá da cerca com a enxada na mão, o menino grudou no pé do irmão puxando o para baixo na tentativa de ultrapassá-lo, mas só não contava com a desgraceira. Quinho perdeu o equilíbrio e deu com o queijo na ponta do mourão que era quadrado e tinha um prego com a ponta invertida bem no topo que servia para  segurar a última fileira de arame e este veio a enganchar o menino pelo papo, impalando o pobre irmão que sempre sofria com as diabruras de Zinho. A vítima se viu gritando tentando sair dali e para piorar as coisas o pai viu tudo vindo como um raio em socorro do filho mais velho, levantou o franzino Quinho enquanto Zinho olhava estatelado a cena, sem nada dizer, o velho olhou de soslaio o traquina com ar de onça assassina,  apeou o garoto no alazão e saiu a todo galope pra casa do Dr. Tílio,  foi só aí que Zinho lembrou da promessa do pai.

“Vô morrê! Aleijei  meu irmão e agora vô morrê! Certo de seu fim se embrenhou no mato pra fugir de seu destino tido como certo sem se dar conta que na verdade o ferimento não foi dos mais graves.

 A noitinha já caia e o cheiro do orvalho  se misturava aos primeiros trinados da noite, “Primeira estrela que eu vejo...Deus executa meu desejo!”, pensou firme ao ver a estrela D’alva no firmamento, tinha de sobreviver e se safar desta mais uma vez, afinal uma hora ou outra teria que acertar contas com seu furioso pai, “Seu moleque, só vou lhe dar o devido respeito quando for homem de verdade.”, lembrou  Zinho da frase dita em uma das brigas que teve com seu pai. O moleque se apercebeu próximo da estação lá estava o “Rápido”, que era o trem que levava direto pra capital, “Depois que eu virá homi de verdade eu vorto, peço discurpas pro Quinho e me entendo com meu pai” pensou Zinho As de Copas. Sabia como driblar o bilheteiro dentro do trem, já havia feito isto, O cheiro ferroso do atrito dos trilhos com as rodas da máquina dava um tom lúgubre junto com o badalar dos sinos que vinham da igreja anunciando o Ângelus em louvor a hora da Ave Maria.

A viagem seguiu tranqüila até chegar numa das paradas do trem já na grande São Paulo, chegando por trás ,e inesperadamente, o bilheteiro o pega pelo cangote e o joga na plataforma de terra e pedriscos, ele se levantou , tirou a poeira entre as  muitas pessoas que andavam prá lá e prá cá esperando o “Pau Véio”, nome dado aos trens suburbanos devido a seu péssimo estado de conservação. Zinho As de Copas decidiu que ficaria por ali, não que soubesse onde estava ou o que iria fazer, mas precisava matar a fome e arrumar um lugar pra dormir, então se sentou um pouco na pracinha bem em frente à estação para observar o movimento “Mas o que é ser um homem? Como posso me tornar um?”, era o que vinha em sua mente. “Ô piá! Qui que tá fazendo aí a esta hora da noite?”, perguntou aquele homem de voz mansa, “Acabei de chegar de viagem”, respondeu cabisbaixo, “E cadê seus pais?”, “Vim sozinho! Vim virá homi pra mó de meu pai num me castigá!”, “Haa! Sei! Fugiu de casa então?”, “È! Qué dizê! Não! Bem! Quase né!”, “Haa! Sei! Quase! E como é quase fugir hein ô piá?... ...Tá bom! Precisa responder não, você deve saber que pra ser homem tem de assumir as responsabilidades não é mesmo?”, “O Quê?!?!” , “Deixa pra lá! Mesmo assim é perigoso ficar por aqui! É que aqui na cidades num é qui nem na roça!”, “Eu sei seu moço! Já vim pra cá uma vez!”, “Vem comigo então! Onde eu moro tem mais moleques qui nem o  ocê, e olha que eles já são quase homens”.

 Não foi pela promessa que Zinho acompanhou o homem, mas por não ter opção mesmo, o nome dele era Nino, conversador, prestativo e  amável sabia ser agradável e passou confiança ao garoto de 10 anos completos, “Esmola demais o santo desconfia”, lembrou o fugitivo rapazola das palavras do padre Tião. Chegaram pouco passado das dez da noite, o local era uma chacrinha bem afastada conhecida como chácara da olaria.  Ele deu comida, arrumou um canto pro garoto e disse “Amanhã eu levo você comigo pra trabaiá”, “Se eu soubesse que seria assim teria fugido antes!” e  foi com este pensamento que adormeceu Zinho As de Copas naquela noite.

Não havia o canto do bem ti vi ou o dos galos pela manhã, o cheiro de café tinha tons de barro e terra, e um fedor de brejo seco bateu forte no nariz, no quartinho notou que dormira num amontoado de trapos que o cansaço o impedira  de reparar, ao fundo pela janela via-se um lago barrento e argiloso cintilando com o frio da manhã,  alguns fornos fumegavam aqui e ali. Quatro outros moleques se movimentavam pelo local, “Oh piá! Explica o trampo pro novato aqui, ele vai trabaiá com vocês.”. “Oi!”, “Oi!”, respondeu Zinho ao menino sujo de barro vestindo roupas em frangalhos que logo foi descrevendo a rotina da olaria, no final o traquina perguntou, “E quanto a gente ganha?”, “Hã? Não importa porque num sobra nada não! A gente tem que pagar a comida, a pousada e a roupa”, um nó na garganta do garoto e uma sensação arrependimento bateu na hora, mais tarde descobriu que não havia hora para almoço, o banho era no lago e  banheiro não tinha e eles não podiam sair dali,  descobriu logo que o homem prestativo de antes era na verdade um tirano,  comum era vê-lo batendo nos meninos, praguejando e xingando e o Zinho As de Copas não fugiu do esquema, no dia seguinte Régis, um dos garotos, levantou doente e não tinha condições de trabalhar, “Vai pro batente sim! Não tem barriga me dói aqui não ô muleque!”, foi a frase final do algoz. “Quem anda com Deus não tem medo de assombração!”, lembrou Zinho da frase que seu pai sempre lhe dizia e que repetiu para o pobre Régis que piorou muito seu estado quando anoiteceu, o que fez Nino,  o malfeitor, levar o garoto que  não voltou com ele horas depois “Levei aquele traste embora, ele não vai mais dar trabalho!”, foi a única justificativa que os garotos ouviram, no entanto todos perceberam o sangue nas  roupas do perverso homem que guardou uma pá suja de terra no armário de ferramentas, “Todos que ele levou embora nunca voltaram!”, falou Joãozinho o mais velho ali.

Passaram-se três  dias e Zinho pensava em sua família, de como as coisas eram diferentes, embora duras, e que o mundo pode ser terrivelmente cruel, chorou com o coração rasgado, chorou alimentando a chuva da madrugada.

A chuva parou quando secou os olhos do menino e o frio anunciava mais um dia de dor, Zinho viu que o amigo levado pelo Nino havia sido substituído, eles não se falavam muito, não era permitido e quando o faziam eram duramente repreendidos e o foram mais uma vez por conta do espanto dos demais em ver que o outro menino era a “outra”, “A Madalena aqui vai ajudar a gente e ainda vai dar um toque especial no lugar... Não é menina?”, a Menina de cabeça baixa estava de cabeça baixa ficou, franzina e de cabelo desgrenhado trazia um vestinho bege com florzinhas que revelava sua criancice encoberta pelo medo aparente.

Mais uma noite chegou, sujos de barro seco argiloso cinza, com muito frio e exaustos todos sentaram ao redor do forno a lenha, cada um buscando se aquecer como podia, a garotinha, feito serviçal, varria o chão de terra batida da cozinha com uma vassoura  feita de mato  sob os olhos bêbados  de Nino que analisava a pequena magricela, todos se entreolharam como se adivinhassem os pensamentos do horrível e fedorento ogro. “Oh Menina! Venha aqui!”, falou agressivamente Nino, recebendo uma negativa acanhada, porém vigorosa.  “Vem menina que vou te fazer mulher... minha mulher! Hahaha!!!” completou o monstro que se pôs a correr  cambaleante atrás da menina que gritava e chorava se defendendo como podia. Encurralada entre a porta do bem guardado e trancado quarto de ferramentas e Nino, ela pode sentir a força do homem empurrando-a para dentro, a coitada viu aquele homenzarrão barrigudo com cheiro de álcool e cocô seco se arrastando para cima dela, tentou se debater, em vão por não ter tamanho ou força. A pequena Madalena sentiu o corpanzil pesar mais ainda, a cabeça do homem  caiu sobre seu pequeno ombro esquerdo como se tivesse adormecido pela bebedeira, ela chorava aos prantos quando viu o vulto de  Zinho As de Copas e os outros garotos, todos ajudaram a tirar o corpo inerte de cima da menina que cuspiu de nojo e ódio sem perceber o que havia acontecido realmente naquele momento, seu vestido e cabelos estavam ensopados de sangue, a lamparina na mão de João iluminou melhor o local, Zinho segurava a picareta com a ponta  ainda pingando sangue.

O silêncio era o que eles conseguiam falar, angústia, confusão e alívio era o que  eles ouviam em seus pensamentos. Madalena pegou uma muda de roupa dos meninos para se vestir enquanto eles dividiam a merreca de dinheiro que estava nas calças de Nino jaz morto. Caminharam o resto da noite acompanhando a estrada como fantasmas. Mudos!

  Chegaram à estação de trem ainda no fim da madrugada. Não! Absolutamente nada foi dito! O primeiro trem chegou ás quatro da manhã sentido Júlio Prestes todos embarcaram, menos Zinho que apenas  olhou no fundo da alma de cada um, deu com a mão e sentou esperando pacientemente o Luxo passar para, horas mais tarde, desembarcar em sua cidade.

 Zé da Palha estava sentado no banquinho de madeira, absorto, soturno, descascando o fumo de corda quando viu o  Dr. Tílio abrir a porta do carro para deixar sair Zinho As de Copas com uma cara séria como nunca se viu, o velho correu até ele e o abraçou forte e  emocionado, Zinho então, deixou uma lágrima cair de seu rosto,  segurou nos ombros largos do Seu Zé, e olhando bem no fundo dos olhos de seu pai disse suas primeiras palavras desde a olaria  “ Aqui posso ser criança né pai?!”.   Fim

Escrito por Edilson Fernandes às 16h27
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