Blog do Edilson


24/01/2012


Reformamos.

Olá Pessoal! Riso

Após longo e intenso verão reformamos nosso blog.

Estamos com um visual mais leve e prazeiroso mantendo a mesma qualidade que nossos trabalhos possuem.

Confira nossas novas aventuras...

Clique no título abaixo para ser redirecionado. 

Como conto de estréia deste novo visû para 2012  temos :

"A Saga dos Yorubás III - O Opaxarô dos Sete Reinos" 

aproveite nosso blog do Edilson edição 2012   

 

Escrito por Edilson Fernandes às 16h55
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08/10/2011


Romance

 Uma Composição é  uma reunião de elementos isolados que, quando unidos, resultam em um todo destacado das partes; 

No transporte ferroviário, uma composição ferroviária, trem ou comboio consiste em um ou vários veículos (carruagens ou vagões), ligados entre si e capazes de se movimentarem sobre uma linha ou trilho, para transportarem pessoas ou carga de um lado para outro, seguindo uma rota previamente planejada. (wickipedia)

Qual a sua definição para "A Composição" leia e me diga...

Escrito por Edilson Fernandes às 09h07
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A Composição

A composição

 

A paisagem viaja rápida pela janela, o cheiro de fuligem desponta ocre em nossos narizes, todavia ninguém liga, estamos acostumados. -Standã! Standã!- É o hit mais ouvido no único lugar onde todos dançam apesar dos fones de ouvido. O trem! Um universo à parte, um lugar tão particular quanto à própria particularidade, quanto à própria singularidade.

No aperto da hora do rush pessoas se vêem diariamente por anos a fio, algumas  formam pequenas famílias de desconhecidos se encontrando todos os dias sem nada falarem ou esboçarem, outras se comportam solitariamente aglomeradas em grupinhos próximos aos bancos que conversam e compartilham dos mais variados assuntos, mas todas são  miríades de vida e emoções, todas são eternos passageiros.

            No penúltimo carro  do  “cinco pras seis” três fantasmas, posicionados cada um em uma porta do vagão, misturam-se aos passageiros, aliás, pergunto eu: Quem dentro de uma composição não poderia ser um fantasma?

            Ali estavam eles, com a mesma postura comum aos passageiros, esperando o que todos num trem esperam. A estação que irão descer. Seria esta a essência da esperança?

             Vejamos José Viana o primeiro fantasma.

             “Sente aqui moça!”, falou José Viana  num certo dia de sua vida, é que ele sempre cedia seu lugar a pessoas que precisavam, nunca demorava mais do que uma estação para o moço de quarenta e tantos anos acenar para alguém substituí-lo no assento. “Quer que eu segure sua bolsa?” disse a mocinha, outra passageira da esperança que passou a frequentar aquele horário por conta do novo emprego. Assim Zé Viana passou, se por gentileza não sei, se por interesse também não, a sempre dar um jeitinho de ceder seu lugar para Jandira, moça formosa no auge de seus trinta e tantos anos. Não demorou para que  ambos se enamorassem e se  portassem como casal, tambem não demorou para que ambos se declarassem casados  cada qual com outro parceiro. Sim! Ele era casado há 18 anos com uma mulher  20 anos mais velha e contava com a esposa doente há três ou quatro anos qual tinha nele o único a lhe dar esteio e carinho. Já Jandira se declarara infeliz no seu casamento, dois filhos, marido  violento e mulherengo, o que lhe rendera outros dois rebentos cada qual  de relacionamentos extra conjugal, mas que não viviam com ela, “Sou muito dependente dele!” dizia sempre a rósea mulher. O tempo passou e o coração de José Viana insuportavelmente reclamava, cada vez mais, seu amor, as escapadas íntimas do casal se davam ao longo dos estabelecimentos próximos as estações. “Não agüento mais, vamos assumir nossa condição!” falou José Viana, “Vamos embora pra Aracaju, eu tenho um dinheirinho guardado, lá eu tenho irmãos e...”, “João! João! Não! Você esta louco? E sua mulher? Quem vai cuidar dela? E Meus filhos?  Eles são muito apegados a mim! Não João! Não podemos!”, “ Olha só Jandira! Este é o símbolo do meu amor por você, amor  pelo qual estou disposto a largar tudo”. João Viana abriu uma caixinha exibindo uma aliança de ouro, um sorriso largo se fez no coração da moça durante aquela noite, tanto que nem seu marido a tirou do sério, mas a decisão veio após seu filho mais velho de 21 anos dizer, após uma discussão sobre como ela compraria um carro para ele, “Pôa mãe! Comprar um carro pra mim é sua obrigação, a senhora não comprou um para o pai?Então! È seu papel de mãe, sua obrigação! O menor de quinze e o marido juntaram forças para extorquir, como sempre fizeram com ela, anos de trabalho árduo e infinitas viagens de trem ao serviço, este é um dos efeito que os parasitas com quem ela convivia trazem. Claro!Eu  não te disse que o marido e os filhos não trabalham e nem estudam, outro desgosto da mulher que alem de sustentá-los tem de cuidar da casa não obtendo nem uma ajuda sequer.  

           No dia seguinte Jandira foi decidida e mudar de vida de vez, “Danem-se bando de Xupim egoístas! ”, só que o destino não sabia dos planos dela e nem de João Viana, o dia seguinte passou e os demais também, é que João Viana nunca mais apareceu, Jandira se tocou  que pouco sabia da vida dele, o celular não atendia mais, os email não eram mais respondidos... ele sumiu. Sumiu! Mesmo mudando de emprego, a agora soturna e abandonada moça, continuava a freqüentar o mesmo horário acariciando o anel de ouro presenteado  esperando ver seu amor retornar e salvá-la do inferno em que vivia... Ah! Ela comprou o carro para o filho!

            Ana Rosa é o segundo fantasma.

            Nerd de corpo e alma, seu desempenho alto em sala de aula era a fuga para sua necessidade de aprovação pelos outros, seu corpo sem forma, seu rosto feinho e seu jeito de vestir e falar sempre rendeu chacotas desesperadoras e cruéis. “Não é assim também pessoal! Pô! Pega leve com a menina! Na hora de fazer trabalho de biofísica é ela que salva a vida de todo mundo né!Ô Manézada viu!”, “Bom! Lá isso é né Altino!”. Altino era o galã da turma, o centro das atenções e dos suspiros, o moço andava de trem por pura escolha, pois seu padrão de vida era mais que suficiente para não precisar disto, “É no vagão do trem que cultivo minhas melhores amizades, o vagão do carro é para outras coisas!” dizia sempre. O dois amigos que sempre voltavam em bando para casa no horário dos estudantes, no “dez e quinze”, passaram a se encontrar também no  “cinco pras seis” a caminho da faculdade. Altino começou a perceber que por trás daquela timidez e retração havia não uma adolescente, mas uma mulher madura e decidida,  suave nas pétalas e agressiva nos espinhos dos talos. Ana Rosa, por sua vez, viu que o moço era um “nerd”  enrustido,  não era tão formoso como pintavam, é que ele era arrumadinho e bem cuidado. “Muito de sua beleza esta no bolso não é Altino?”, “KKKKK! É uma vantagem que tenho sobre a sua beleza né Rosa? KKKK!”. Eles não se sentiam ofendidos com observações ácidas desde que estivessem sozinhos, o que acontecia  no penúltimo vagão do “cinco pras seis”.

            Quem ficou muito bolada com o coração foi a Ana Rosa, não admitia estar envolvida com o cara mais requisitado da turma, sentia que o conhecia há milênios, ele era “perfeito”, apesar dos “defeitos”. Ela não falou  para Altino, mas foi a primeira vez dela , foi maravilhoso, nunca podia imaginar o quanto a felicidade era completa com ele, já Altino tomava por certo que ela era a mulher de sua vida e com ela deveria assumir uma vida mais consistente. A gravidez dela caiu como a um tsunami, sem avisar, violento e arrebatador. Altino pulava de alegria, mas ela parecia que carregava um enorme penedo do mais puro granito nas costas, “Altino por favor,  não fale pra ninguém por enquanto, vai! Por favor?”, “Já não basta esconder nosso namoro, sei lá porque, e você ainda me pede pra esconder algo tão importante pra mim?”, “É que é tudo tão confuso sabe? É você, é meus planos pro futuro.. eu...eu..”, “...Eu não estou nos seu planos não é?”, “É! Qué dizê! Não! Ahhh! Sei lá! Só me dá um tempo pra eu colocar a coisas no lugar”. Estas foram as últimas palavras que Altino ouviu de Ana Rosa.

 “ Altino! Altino! Sabe a Ana Rosa?”, “O que tem ela?”, “Morreu cara!”, “ O quê?”, “Morreu no sábado cara!”, “Como assim? Tá de brincadeira moleque!”, “É sério mano!”. Altino não acreditava, já tinha achado estranho que a Ana não havia ligado desde a última conversa que tiveram na quinta, a ficha só veio a cair quando todos comentavam o ocorrido. “Então cara! Diz que ela ficou tipo grávida e tentou um aborto numa clínica lá! E depois, tipo, passou mal, foi pro hospital e morreu de infecção generalizada! Tipo!O enterro foi no domingo ontem! Tá ligado!”, Altino continuava mudo como um furacão, o som dos trilhos do trem  urravam por seu coração, as lágrimas foram inevitáveis, os amigos não estranharam sua reação pois sempre foi muito emotivo. Não sabiam que eram tão ligados. “ E você viu cara! No jornal deu que ela, na verdade não estava tipo grávida, entendeu? E que mesmo assim a clínica lá fez a operação...o que as pessoas não fazem por dinheiro não é? Tipo! Seilávelho! Mó sinistro!”.

Altino agora pega o “cinco pras seis”  como tributo a pessoa que ele mais amou,  “As coisas são mais do que as próprias coisas podem ser”, dizia ele sempre que entrava no penúltimo vagão.

 

Dona Leopoldina, o terceiro fantasma.

“Ahhh Filha! Meus netos já estão criados, meus filhos também e eu quero mais curtir minha aposentadoria, não vejo a hora!”, “Tá bom que você vai parar trabalhar e ficar só com a aposentadoria! Você Penha? Mais fácil é  galinha criar dentes!”, “Então você vai ver Leopoldina, eu sumo no mundo, afinal eu mereço né! Quarenta e cinco anos nesta vida neste mesmo horário, peloamordedeus né! Ninguém merece já cumpri minha penitência!”, “Rsrsrsr! Então você vai me deixar mesmo? Né Penha!”. Um ar de tristeza tomou forma no olhar vago entre Leopoldina e Penha que passaram a contemplar a paisagem que vista do trem nunca se fixa, um pouco como as vidas dos passageiros, que só se fixam em seus destinos. “Você é nova ainda Leopoldina, é uma velha bonita cheia de energia ainda e...”, “Penha! Tenho algo a te confessar”, “Fala menina! O que é? Vai fala logo!”, “Eu ti amo!”, “Rsrsrsrsrs! Eu também te amo amiga!rsrsrsr”, “Não Penha! Eu te amo de verdade, não como amiga ou parceira de trem, mas de verdade mesmo! Me desculpe, meu amor, mas tinha que dizer, principalmente agora que nos veremos menos e depois destes anos todos juntas me bateu um desespero!”. Penha não fez o discurso esperado, sempre houve algo no ar, ela ficou olhando a amiga que desviava o olhar envergonhado. “Isto não tem cabimento Leopoldina! Somo duas velhas, logo logo você tambem vai estar se aposentando e...”, “Não desconversa Penha!”.

Leopoldina, 60 anos, avó e prestes a perder a mulher que ama. Penha, 59 anos, avó e prestes a se aposentar. È isto! Simples como o nascer do sol e é claro que no dia seguinte estavam as duas conversando alegremente e para os olhares mais atentos as duas estavam mais íntimas, discretas, mas íntimas. Assumiram sua condição e suas conversas giravam sobre seus planos que tomavam outro tom... “E nossas famílias?”, “O que tem?” , “Como o que tem Leopoldina? Já não será fácil assumir nossa condição perante as pessoas imagine perante nossos filhos e netos! Já pensou quando souberem que duas velhas resolveram mudar de opção sexual”, “E desde quando tivemos opção sexual Penha! Pensa bem! Sempre tivemos as opções dos outros, primeiro nossos falecidos e que o diabo os tenham em mal lugar, depois nossas obrigações com os filhos  e hoje com os netos! Porque, fala sério vai? Se deixarmos as meninas sozinhas não sei o que seria deles não é? E ainda tem os genros que são uns...”, “...Tátata! Já entendi, mas isto não muda nada e a pressão será muitos grande !”, “Vamos ficar bem Penha, vai dar tudo certo, e depois nossa cambada é dependente demais de nós pra ficar chiando e quanto aos outros... que se danem!”.

Escrito por Edilson Fernandes às 08h34
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A composição - epílogo

 

E foi assim que elas contornaram a situação, por conta da relação de conveniência e dependência que todos nas duas famílias tinham para com suas matriarcas, “Quem não tiver de acordo pode pegar seus panos de bunda e viver suas vidas que já vão tarde!”, berrou Leopoldina a todos que tentaram esboçar qualquer contrariedade. Como sempre, Penha aguarda Leopoldina na plataforma onde para o penúltimo vagão do “cinco pras seis”, “Ela vai amar a aliança de noivado que eu comprei”, pensou a enamorada mulher. Leopoldina surge ao longe, correndo com a face do desespero estampada em seu rosto “Pega ladrão!” gritava  a senhora em meio a multidão. A alguns passos na frente e entre ela e  sua amada estava um jovem correndo e abrindo caminho, Penha pode ver bem o rosto dele, nunca o esqueceria desde então, com o intuito de não perder o  dinheiro de seu pagamento Leopoldina reúne forças e acaba alcançando o ladrão para então começar a brigar com ele ante aos olhos atônitos dos passageiros postados como dormentes na plataforma, Penha sai correndo para ajudar a amiga, “Pelamordedeusalguemacudaela!”, alguns passageiros tomam coragem e se aproximam rapidamente, mas o meliante da um giro a arremessa a pobre Leopoldina nos trilhos, ela bate a cabeça e vem a falecer sob os olhos atônitos de todos. O ladrão foge levando o pagamento que Leopoldina recebera.

Penha não tem alternativa a não ser continuar a pegar o trem no mesmo horário e lembrar dia a dia a morte da única pessoa a quem verdadeiramente amou “Leopoldina!”.                      

 Sexta-feira, o “cinco e quarenta” esta atrasado a  estação esta lotada, todos  se apertam para lutar por um lugar, enquanto o “Cinco pras seis” encosta, o empurra empurra é  ritualístico, sempre do mesmo jeito, é  cada Deus pra si e nós por nós mesmos.

 Penha senta, mas oferece seu lugar para uma menina grávida que chegou perto dela. O quê? Homens gentis? Mas quá! Nem pensar! Um cheiro de nostalgia bate forte no coração de senhora que imediatamente estica o pescoço  a procura da inconfundível fragrância que Leopoldina sempre usava, “ Mas que diacho! O que?Leopoldina?É você?”, Penha viu  o fantasma de Leopoldina por uns instantes até que, ao olhar atentamente, enquanto tentava chegar até a amada que partira tragicamente, reconheceu o assassino daquele dia, ele estava parado imediatamente a frente do fantasma de Leopoldina que acenava sorrindo para sua amiga como se despedindo sob uma nesga de raio do sol da tarde daquele dia. Penha tambem sorri e acena, o rapaz acha que é com ele e acena de volta sem se dar conta de quem era aquela mulher. Num flash como que saída de um transe Penha volta a si e  começa gritar “Assassino!Assassino!”, outras  pessoas  tambem reconhecem o homem.

Sentada no banco próximo à porta e alheia a toda movimentação  Jandira pensa em José Viana, nem percebe que o assassino a toma pelo braço fazendo-a refém com uma arma na cabeça, “Não importa!” pensou a moça, “Seria até bom que ele me matasse e acabasse com este sofrimento! Onde você esta meu amor?”, era a única pergunta que ela fazia desde o sumiço do amado. Tumulto, gritaria, seguranças e policiais chegando, mas tudo é muito rápido, toda a ação relatada agora acontece em exatos 30 segundos. O algoz e a refém Jandira se acuam no lado do vagão em que as portas estão fechadas, Penha não para de berrar, gritar e chorar pedindo justiça. Jandira olha além da multidão que não se aproxima dos dois, dada a situação de morte que se instaurava ali,   seus olham localizam José Viana e uma esperança se fez, uma chama de alegria percorreu o corpo da mulher, ele estava ali no meio das pessoas era só atravessar o vagão e tê-lo novamente, José Viana Sorri para ela e  acena pedindo para que venha até ele, a dor da apatia e o medo de perde-lo novamente lhe acendeu o animo e então, de salto alto, pisa  fortemente nos pés do seqüestrador que a solta de imediato, ela grita “Meu amor! Meu amor!”. Jandira avança em direção a seu José Viana e contra a multidão que avança sobre o homem armado,  este  mira o revolver nas costas da donzela. Jandira nada vê ou ouve alem de José Viana poucos metros a sua frente.

Outro passageiro nosso conhecido também estava alheio a toda movimentação. Sim! Altino! Ele estava ali olhando para o vazio de toda aquela ação, aquilo não era com ele, “Sinto sua falta meu amor, volta pra mim!”, pensava ele naquele exato momento, mas não pode ficar sem levantar os olhos marejados e perceber Jandira passando ao lado dele tirando-o do caminho e interpondo-o entre o vilão armado e ela. Não era a arma, que anteriormente estava apontada para as costas de Jandira e agora para ele, que lhe chamou a atenção, mas a presença e o sorriso metálico de  Ana Rosa que se postara ao lado do bandido, que é claro, não a via. Ana Rosa não sorria, somente olhava Altino como quem pedisse desculpas e por um instante, que para ele fora uma eternidade, a  jovem moça esboçando um semblante característico do um limiar de luz e  sombra diz, “Eu ti amo! Me perdoe!”, Altino ouve claramente e sorri para ela dizendo “Tudo bem! ,Tudo bem! Porém havia uma realidade alternativa dentro dos  trinta segundos de eternidade. O forte rapazola percebeu que sua amada estava em perigo bem ao lado de um malfeitor que, agora sim, viu que lhe apontava uma arma, desta maneira sem pensar e para proteger sua amada Altino se atira e entra em combate com o homem. Dois tiros são ouvidos. Penha, que os alcançou, bate desesperadamente com sua bolsa na cabeça do algoz de sua amada e o segura para que ele não escape novamente, enquanto outros passageiros chegam para finalmente imobilizar o rapaz. Gritaria, polícia e ambulância que leva Altino às pressas para o hospital.

Jandira corre atrás de seu amado, mas o fantasma se perde na multidão, a única coisa que ela viu, foi o nome de uma empresa no paletó que José Viana usava e que ela nunca tinha visto. Isto fez Jandira encontrar o local de trabalho dele, uma empresa de segurança patrimonial. Com o coração aos pulos e já fazendo planos, Jandira fala com o chefe de José, “Há algum engano senhora! O José Viana que a senhora diz que viu outro dia não é o nosso Zé Viana não! Este é nosso herói aqui, ele tambem tem uma esposa muito doente e de cama  e tudo mais, mas ele morreu pouco tempo atrás num assalto a banco e olha que ele matou os bandidos, defendeu duas crianças, mas um dos infelizes atirou nele e...”. Jandira não sabia o que era pior, saber que o Zé Viana havia morrido ou se...! “Ao menos eu sei o que houve! Fica com Deus meu amor”, um perfume de rosas vermelhas, o preferido de José, invadiu o quarto da moça que meditava olhando o pôr do sol.

No dia seguinte Penha entra no “cinco pras seis” e diz “Obrigado meu amor! Agora eu entendo!”, Jandira entra e senta ao lado da senhora e ambas começam a conversar, Altino aparece mancando, os tiros acertaram a coxa e os ferimentos não foram graves, ele acena para elas do outro lado e assim seguem para casa como sempre fazem os passageiros do “cinco pras seis”. O brilho metálico do trem partindo contrasta com o sol que lança um brilho singular como uma benção que conforta os corações daqueles que viajam pela vida com suas bagagens sejam elas pesadas ou não.

Fim                                               

 

Escrito por Edilson Fernandes às 08h33
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05/08/2011


Aventura

Você sabe quando um menino se torna um homem?

E o que é ser homem?

Baseado em fatos reais. 

Escrito por Edilson Fernandes às 17h13
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As de Copas

As de Copas 

No início do inverno da década de 70, a tardinha já vinha caindo com aquele sol frio de inverno, a secura do ar trazia o cheiro de milho torrado na fogueira, aqui e ali galinhas ciscavam  uma  ou outra quirera perdida no terreiro. Apoiado com o braço no cabo da enxada que lhe servia de muleta, o menino Zinho As de Copas, cujo apelido fora conseguido por conta da sua fama de “Ter fogo no as de copas”, observa da cerca de arame de sua casa  a molecada brincando de bola no campinho. “Vem Brincá Zinho!”, gritou  um dos amiguinhos, “Posso não! Tô de castigo”, devolveu o triste menino.

Seu pai, Seu Zé da Palha, era  homem severo, respeitado e temente a Deus, vivia tentando dar tenência ao moleque Zinho que todo dia aprontava das suas, tanto que estava de castigo por conta de enganar seu irmão mais velho, em um ano apenas, fazendo ele comer um téquinho de carne de sapo pensando que era rã, o pobre foi até parar no postinho do tanto que vomitava de nojo. “Zinho, Zinho! Sapo tem veneno moleque, podia ter matado seu irmão!”, disse o Dr. Tílio, médico local. “Próxima vez que você me aprontar seu moleque desarvorado, eu juro pela alma da tua mãe, que há de estar no céu, que eu te mato tirando seu fígado com uma concha seu filha duma...”, “Calma Seu Zé, ele é só um moleque ainda”, “Moleque nada Dr., isso é desde quando ele nasceu, lembra?  O Sr. disse no parto da Norminha que era ele ou ela, só um dos dois sobreviveria e a Norminha fez eu jurar por Nossasenhoraaparecida que seria ele Dr., o Sr. lembra! Este moleque é coisa do Duba dubá, o Pé Preto, o Tinhoso, Carcará... É dele que este ai é filho!” e olhando severamente repetiu, “Te mato! E te mato com gosto seu moleque!”      

A surra foi certa, mas nem  capinar a roça de milho por um mês foi pior do quê ouvir da boca de seu pai, “Acho que ele falou sério desta vez!” pensou chorando a falta da mãe que nunca havia conhecido.

Zinho tinha espírito independente, fazia o que dava na telha sem medir consequências e por conta de sua rebeldia, largou a enxada  dando de ombros como sempre fazia quando resolvia fazer alguma traquinagem, “Vou apanhar de qualquer jeito mesmo”, retrucou, “E meu pai tá na cidade, nunca que ele vai ficar sabendo, fico de olho  na estrada e corro pra roça mó dele não me pegá!” pensou o ardiloso Zinho enquanto pulava a cerca de arame farpado.

Dito e feito! O pai do menino apontou na estrada e o irmão de Zinho, que tinha se juntado ao jogo  deu o alarme, “O pai! O pai!” , os dois saíram correndo para dar cabo do plano  “ E você não me dê nem um pio viu!”, “Falo não! E só pra não sobrar pra mim!”,   os dois deram pinote até a cerca com o Quinho na frente e este se apoiou no mourão que eles sempre usavam pra cortar caminho,  foi neste momento que Zinho As de Copas aprontou de novo. Vendo que não daria tempo de seu pai vê-lo do lado de lá da cerca com a enxada na mão, o menino grudou no pé do irmão puxando o para baixo na tentativa de ultrapassá-lo, mas só não contava com a desgraceira. Quinho perdeu o equilíbrio e deu com o queijo na ponta do mourão que era quadrado e tinha um prego com a ponta invertida bem no topo que servia para  segurar a última fileira de arame e este veio a enganchar o menino pelo papo, impalando o pobre irmão que sempre sofria com as diabruras de Zinho. A vítima se viu gritando tentando sair dali e para piorar as coisas o pai viu tudo vindo como um raio em socorro do filho mais velho, levantou o franzino Quinho enquanto Zinho olhava estatelado a cena, sem nada dizer, o velho olhou de soslaio o traquina com ar de onça assassina,  apeou o garoto no alazão e saiu a todo galope pra casa do Dr. Tílio,  foi só aí que Zinho lembrou da promessa do pai.

“Vô morrê! Aleijei  meu irmão e agora vô morrê! Certo de seu fim se embrenhou no mato pra fugir de seu destino tido como certo sem se dar conta que na verdade o ferimento não foi dos mais graves.

 A noitinha já caia e o cheiro do orvalho  se misturava aos primeiros trinados da noite, “Primeira estrela que eu vejo...Deus executa meu desejo!”, pensou firme ao ver a estrela D’alva no firmamento, tinha de sobreviver e se safar desta mais uma vez, afinal uma hora ou outra teria que acertar contas com seu furioso pai, “Seu moleque, só vou lhe dar o devido respeito quando for homem de verdade.”, lembrou  Zinho da frase dita em uma das brigas que teve com seu pai. O moleque se apercebeu próximo da estação lá estava o “Rápido”, que era o trem que levava direto pra capital, “Depois que eu virá homi de verdade eu vorto, peço discurpas pro Quinho e me entendo com meu pai” pensou Zinho As de Copas. Sabia como driblar o bilheteiro dentro do trem, já havia feito isto, O cheiro ferroso do atrito dos trilhos com as rodas da máquina dava um tom lúgubre junto com o badalar dos sinos que vinham da igreja anunciando o Ângelus em louvor a hora da Ave Maria.

A viagem seguiu tranqüila até chegar numa das paradas do trem já na grande São Paulo, chegando por trás ,e inesperadamente, o bilheteiro o pega pelo cangote e o joga na plataforma de terra e pedriscos, ele se levantou , tirou a poeira entre as  muitas pessoas que andavam prá lá e prá cá esperando o “Pau Véio”, nome dado aos trens suburbanos devido a seu péssimo estado de conservação. Zinho As de Copas decidiu que ficaria por ali, não que soubesse onde estava ou o que iria fazer, mas precisava matar a fome e arrumar um lugar pra dormir, então se sentou um pouco na pracinha bem em frente à estação para observar o movimento “Mas o que é ser um homem? Como posso me tornar um?”, era o que vinha em sua mente. “Ô piá! Qui que tá fazendo aí a esta hora da noite?”, perguntou aquele homem de voz mansa, “Acabei de chegar de viagem”, respondeu cabisbaixo, “E cadê seus pais?”, “Vim sozinho! Vim virá homi pra mó de meu pai num me castigá!”, “Haa! Sei! Fugiu de casa então?”, “È! Qué dizê! Não! Bem! Quase né!”, “Haa! Sei! Quase! E como é quase fugir hein ô piá?... ...Tá bom! Precisa responder não, você deve saber que pra ser homem tem de assumir as responsabilidades não é mesmo?”, “O Quê?!?!” , “Deixa pra lá! Mesmo assim é perigoso ficar por aqui! É que aqui na cidades num é qui nem na roça!”, “Eu sei seu moço! Já vim pra cá uma vez!”, “Vem comigo então! Onde eu moro tem mais moleques qui nem o  ocê, e olha que eles já são quase homens”.

 Não foi pela promessa que Zinho acompanhou o homem, mas por não ter opção mesmo, o nome dele era Nino, conversador, prestativo e  amável sabia ser agradável e passou confiança ao garoto de 10 anos completos, “Esmola demais o santo desconfia”, lembrou o fugitivo rapazola das palavras do padre Tião. Chegaram pouco passado das dez da noite, o local era uma chacrinha bem afastada conhecida como chácara da olaria.  Ele deu comida, arrumou um canto pro garoto e disse “Amanhã eu levo você comigo pra trabaiá”, “Se eu soubesse que seria assim teria fugido antes!” e  foi com este pensamento que adormeceu Zinho As de Copas naquela noite.

Não havia o canto do bem ti vi ou o dos galos pela manhã, o cheiro de café tinha tons de barro e terra, e um fedor de brejo seco bateu forte no nariz, no quartinho notou que dormira num amontoado de trapos que o cansaço o impedira  de reparar, ao fundo pela janela via-se um lago barrento e argiloso cintilando com o frio da manhã,  alguns fornos fumegavam aqui e ali. Quatro outros moleques se movimentavam pelo local, “Oh piá! Explica o trampo pro novato aqui, ele vai trabaiá com vocês.”. “Oi!”, “Oi!”, respondeu Zinho ao menino sujo de barro vestindo roupas em frangalhos que logo foi descrevendo a rotina da olaria, no final o traquina perguntou, “E quanto a gente ganha?”, “Hã? Não importa porque num sobra nada não! A gente tem que pagar a comida, a pousada e a roupa”, um nó na garganta do garoto e uma sensação arrependimento bateu na hora, mais tarde descobriu que não havia hora para almoço, o banho era no lago e  banheiro não tinha e eles não podiam sair dali,  descobriu logo que o homem prestativo de antes era na verdade um tirano,  comum era vê-lo batendo nos meninos, praguejando e xingando e o Zinho As de Copas não fugiu do esquema, no dia seguinte Régis, um dos garotos, levantou doente e não tinha condições de trabalhar, “Vai pro batente sim! Não tem barriga me dói aqui não ô muleque!”, foi a frase final do algoz. “Quem anda com Deus não tem medo de assombração!”, lembrou Zinho da frase que seu pai sempre lhe dizia e que repetiu para o pobre Régis que piorou muito seu estado quando anoiteceu, o que fez Nino,  o malfeitor, levar o garoto que  não voltou com ele horas depois “Levei aquele traste embora, ele não vai mais dar trabalho!”, foi a única justificativa que os garotos ouviram, no entanto todos perceberam o sangue nas  roupas do perverso homem que guardou uma pá suja de terra no armário de ferramentas, “Todos que ele levou embora nunca voltaram!”, falou Joãozinho o mais velho ali.

Passaram-se três  dias e Zinho pensava em sua família, de como as coisas eram diferentes, embora duras, e que o mundo pode ser terrivelmente cruel, chorou com o coração rasgado, chorou alimentando a chuva da madrugada.

A chuva parou quando secou os olhos do menino e o frio anunciava mais um dia de dor, Zinho viu que o amigo levado pelo Nino havia sido substituído, eles não se falavam muito, não era permitido e quando o faziam eram duramente repreendidos e o foram mais uma vez por conta do espanto dos demais em ver que o outro menino era a “outra”, “A Madalena aqui vai ajudar a gente e ainda vai dar um toque especial no lugar... Não é menina?”, a Menina de cabeça baixa estava de cabeça baixa ficou, franzina e de cabelo desgrenhado trazia um vestinho bege com florzinhas que revelava sua criancice encoberta pelo medo aparente.

Mais uma noite chegou, sujos de barro seco argiloso cinza, com muito frio e exaustos todos sentaram ao redor do forno a lenha, cada um buscando se aquecer como podia, a garotinha, feito serviçal, varria o chão de terra batida da cozinha com uma vassoura  feita de mato  sob os olhos bêbados  de Nino que analisava a pequena magricela, todos se entreolharam como se adivinhassem os pensamentos do horrível e fedorento ogro. “Oh Menina! Venha aqui!”, falou agressivamente Nino, recebendo uma negativa acanhada, porém vigorosa.  “Vem menina que vou te fazer mulher... minha mulher! Hahaha!!!” completou o monstro que se pôs a correr  cambaleante atrás da menina que gritava e chorava se defendendo como podia. Encurralada entre a porta do bem guardado e trancado quarto de ferramentas e Nino, ela pode sentir a força do homem empurrando-a para dentro, a coitada viu aquele homenzarrão barrigudo com cheiro de álcool e cocô seco se arrastando para cima dela, tentou se debater, em vão por não ter tamanho ou força. A pequena Madalena sentiu o corpanzil pesar mais ainda, a cabeça do homem  caiu sobre seu pequeno ombro esquerdo como se tivesse adormecido pela bebedeira, ela chorava aos prantos quando viu o vulto de  Zinho As de Copas e os outros garotos, todos ajudaram a tirar o corpo inerte de cima da menina que cuspiu de nojo e ódio sem perceber o que havia acontecido realmente naquele momento, seu vestido e cabelos estavam ensopados de sangue, a lamparina na mão de João iluminou melhor o local, Zinho segurava a picareta com a ponta  ainda pingando sangue.

O silêncio era o que eles conseguiam falar, angústia, confusão e alívio era o que  eles ouviam em seus pensamentos. Madalena pegou uma muda de roupa dos meninos para se vestir enquanto eles dividiam a merreca de dinheiro que estava nas calças de Nino jaz morto. Caminharam o resto da noite acompanhando a estrada como fantasmas. Mudos!

  Chegaram à estação de trem ainda no fim da madrugada. Não! Absolutamente nada foi dito! O primeiro trem chegou ás quatro da manhã sentido Júlio Prestes todos embarcaram, menos Zinho que apenas  olhou no fundo da alma de cada um, deu com a mão e sentou esperando pacientemente o Luxo passar para, horas mais tarde, desembarcar em sua cidade.

 Zé da Palha estava sentado no banquinho de madeira, absorto, soturno, descascando o fumo de corda quando viu o  Dr. Tílio abrir a porta do carro para deixar sair Zinho As de Copas com uma cara séria como nunca se viu, o velho correu até ele e o abraçou forte e  emocionado, Zinho então, deixou uma lágrima cair de seu rosto,  segurou nos ombros largos do Seu Zé, e olhando bem no fundo dos olhos de seu pai disse suas primeiras palavras desde a olaria  “ Aqui posso ser criança né pai?!”.   Fim

Escrito por Edilson Fernandes às 16h27
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27/06/2011


Romance

Os Melhores sonhos são aqueles em que vivemos acordados... Será?

Leia o conto "Caicul" e depois me fale!

Escrito por Edilson Fernandes às 17h52
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Caicul

Caicul

Por Edilson F.P. da Silva

As sensações eram incríveis, tudo era grande e pequeno ao mesmo tempo, o sol estava deliciosamente gelado e a chuva refrescantemente quente, uma abelha gigante surgiu do nada, me ofereceu mel numa taça de porcelana caindo de um bule de jade... Deus!Que sabor era aquele... Sem igual! Olhei para baixo enquanto o dócil inseto se afastava, era como se eu estivesse sobre um piso de vidro transparente pouco abaixo das nuvens pairando sobre  plantações de  flores de pétalas com aspecto de asas de borboleta do tamanho de edredons, uma brisa morna trouxe aquele perfume... Indescritível! Para você ter uma idéia o aroma que mais se aproxima é o de pinho com o orvalho matutino, mas é uma comparação pífia. No horizonte a aurora cintilava modulando ondas com todas as cores do espectro luminoso... ...Elas  estavam  absurdamente lindas. Senti como se uma mão gigante acolhesse meu corpo em sua palma. Uma pétala das flores dos campos abaixo voou por entre os grandes dedos que mais pareciam portais e acobertou  meu corpo, que agora percebi,  estava nua. A suavidade do contato da pétala gigante que envolvia meu corpo como um casulo se comparava ao mais delicado tecido, era como se um veludo mil vezes mais macio acariciasse minha pele castigada. Em seguida a mão se revelou um enorme colo e me embalou o que fez me sentir segura e feliz como nunca havia sentido, tentei olhar o rosto  que voava comigo nos braços. Sem sucesso! Um frisson percorreu meu corpo, outra sensação, desta vez mais intensa, me dominou, ruborizei e vi meu lábios crescerem e tomarem vida suplicando pelos lábios de meu condutor.

Acordei encolhida e embaraçosamente... bem, não sei explicar! Corri para o banheiro e apesar do frio matinal, encarei um banho gelado, precisava me controlar. No café do hotel encontrei minha amiga de trabalho. “Puxa amiga, tá quase na hora de começar o congresso!”, muito sem jeito eu disse, “Dormi demais!”, “Hãhã! Eu percebi”, “Como Assim?” indaguei enquanto virava um pote inteiro de mel em minha torrada. Ela disse que durante a noite eu gargalhava e vez por outra gemia, até que tomou coragem  e espiou para ver o que me fazia tão feliz, percebendo que não havia ninguém ela abriu um pouco a porta e pode ver melhor meu estado, chegou perto e cobriu meu corpo despido. Ralhou comigo, pois tropeçou em meu sutiã caindo por cima de minhas malas, “Não sei como não acordou, Que sonho bom hein amiga? Quem era o gato?”.

“Nossa! Mas eu..., quer dizer..., não entendo!”, “O quê amiga?”, “Eu tive um sonho estranho sim, mas quem estava gemendo, digo, berrando! Era você!”, “Iiii! Viajô  hein!!!” respondeu meio que disfarçando, “Sério menina! Desculpe, mas eu é quem fui até seu quarto pra pedir pra você maneirar, bati e logo em seguida você parou, achei até que estava com  aquele bonitinho de ontem a noite  lembra?”, “Imagina amiga! Esqueceu que fomos dormir juntas depois do bar? E além de tudo o cara era gay! Eu hein?”, “Há Sei lá!”, “Eieiei! Manera no mel amiga”, “Nossa é mesmo! Ououou! E você? Manera no chocolate menina!”.

Tentei esquecer tudo usando a maratona de palestras como muletas. Tentei! Juro que tentei, mas foi em vão! Levei várias broncas de minha amiga, meu olhar estava absorto no nada, meu íntimo sorvia a espera do véu da noite como o único universo possível. Racionalmente falando eu me desculpava procurando uma lógica no caos... ...Quanta inocência de minha parte!

  Estava na fila do almoço, um batalhão de pessoas disputavam pratos saladas e lugares... “Oi filhaaaa!”, havia esquecido de falar com a minha pequerrucha e então ela me ligou. Sem crise! Depois de alguns minutos entre equilibrando o prato e o celular no ombro ela disse despedindo... “Mãe! Traz um anjo de chocolate?”, “O quê?”, “Um anjo de chocolate! Me traz?”, “Filha! Onde vou achar um anjo de chocolate aqui?”, “Pede pra tia ela me prometeu!”, virei pra minha amiga e perguntei, “Oh Menina! Você prometeu chocolate pra pequerrucha?”, “Eeeu? Claro que não!”. Eu disse ainda que a idéia dela era por conta de um sonho com um anjo de chocolate e conforme eu contava o sonho ela arregalava os olhos, no final completou quase murmurando, “É muita coincidência!”, no entanto, aceitou levar chocolates para minha filha.  Foi só mais tarde que reparei que ela estava com uma caixa de bombons na bolsa quais comia quase sem perceber, isto depois de devorar um petit gateou com bolas de sorvete e chantili de chocolate.

Desliguei o celular e como malabarista guardei-o na bolsa, foi quando senti uma mão pesar meu ombro desnudo inutilmente coberto pela alça de minha camiseta, o que deixava a mostra uma tatuagem de pitangas, homenagem feita a meu marido por ocasião de nosso casamento. Através daquele toque senti a suavidade  da pétala daquela estranha flor de meu sonho. Senti! E me lembrei de cada momento qual uma pedra no fundo de uma cachoeira que recebe de uma só vez  as águas das boas memórias trazidas  do rio da vida. Um zumbido se fez, pensei ser o farfalhar das asas da grande abelha, meu coração bateu desesperado, tudo era real! Que mão era aquela, de quem era, por que eu fiquei assim? “Tudo bem amiga?”, “Você viu? Você viu?”, “O quê?” respondeu minha amiga com ar indiferente e distante. Não tem coisa mais frustrante do que tentar compartilhar um sonho... Mais frustrante ainda é tentar entender o sonhar.

 Tive uma paz relativa na parte da tarde, me envolvi com as atividades do congresso, se é que ficar ouvindo uma pessoa falar por seis horas a fio pode se chamar de atividade. Eu disse relativa porque minha amiga não parava de comer chocolates e eu achei aquilo muito perturbador. “Você não esta comendo muito chocolate, Menina?”, “Ah! Sei lá!”, a cara de prazer que ela fez enquanto mordia aquele bombom despertou olhares vizinhos.

 Depois da janta voltei para o quarto, liguei para o Di, meu marido, foi estranho eu o amo... ou... ou sei lá! Estou confusa! Em seguida  falei com a pequerrucha que mais uma vez me veio com a conversa do tal anjo de chocolate, o difícil ia ser achar um... não! O difícil foi explicar para o  Di minha irritante indiferença ao telefone. “Você nunca deixou de dizer que me ama, eu nunca precisei pedir”, disse ele no final da ligação.

 “Vamos descer para o bar?”, “Sei lá! Acho que não! Acho que vou dormir, nosso voo sai muito cedo” respondi, mas de verdade queria sonhar uma vez mais. Acabei descendo, com a promessa que voltaria logo, sentamos numa mesa ao ar livre, mal havia me acomodado quando senti o perfume do sonho da noite anterior penetrar em meu cérebro, e hipnotizada pelo suave odor chegado a fragrância  pinho amadeirada caminhei pelo local até parar de fronte a uma das mesa, minha amiga veio atrás, passou por mim e sentou em frente ao rapaz que estava ao lado dele e  enquanto eu tentava entender o que estava acontecendo ela disse “De que Diretoria Regional vocês são...”, Ela não disfarçava o entusiasmo, nunca  tinha a visto assim tão radiante e verdadeira, sem joguetes nem reservas e eu permanecia ali, parada, em pé sem nada dizer. Ele me fitava com seus olhos negros profundos que me cegavam como o sol de meu sonho, o perfume vinha de sua respiração calma e tranqüila, me ofereceu suas mãos com a delicadeza  das pétalas da flor de mil veludos. Tive a certeza que dali em diante poderia morrer  que esta seria de felicidade. Ele se levantou, alto, másculo, feroz e determinado, ao mesmo tempo sereno e delicado, “Nosso quarto é ao lado do deles!” disse a menina toda entusiasmada. Nós dois não falávamos, não era necessário perdermos tempo, somente seguimos o casal de amigos que iam à frente brincando,  dançado e fazendo troça... Ao entrar em nosso quarto o paraíso desceu a terra como os deuses haviam prometido, as paredes se desfizeram em cores que eu nunca tinha visto antes, seus braços fortes me ergueram e depositaram meu corpo numa cama de pétalas de rosas vermelhas que rodopiavam os céus com nuvens banhadas pelos primeiros raios de sol do alvorecer, eu estava embriagada de prazer e me entreguei sem resitência. Eu queria aquilo! Eu sonhei acordada com aquilo! Foi quando conheci o amor dos meus sonhos, foi quando comprei  meu passe para o inferno, me perdoe Di, me perdoe pequerucha, minha alma é fraca! Me digam  quem tem uma alma  tão forte que pudesse resistir?

     Acordei de sobressalto! Corri até a cama da minha amiga que estava desfalecida e seminua denunciando o ocorrido da noite anterior,  “Menina! Acorda! Estamos atrasadas! Vamos logo ou perderemos o voo!”. No check-out a menina perguntou ao recepcionista “Quem estava no quarto 322 ao lado do nosso?”, “Ninguém senhora! O quarto estava vazio!” Nos entre olhamos espantadas e sem pensar sai correndo para o bar e perguntei ao gerente da noite anterior, que estava fechando seu turno, se ele viu a gente e se ele conhecia as pessoas que saíram conosco... “Não! As senhoras estavam sozinhas, sua amiga ria muito e então a certa altura vocês levantaram e se retiraram para seus quartos, me recordo porque a senhora pediu um pote de mel e sua amiga uma caixa de chocolates para levar”.

     Agora estamos aqui, caladas mudas e sem saber o que pensar... “Tem certeza do resultado amiga?”, “Tenho! Ambas estamos grávidas de três meses e a data da concepção coincide com aquela noite no hotel...”, “Eu tinha certeza que era só um sonho maluco!”, “Eu também, amiga! Eu também!...Como vamos explicar tudo isto?”.

 

       “Vejo que ainda anda se aproveitando de humanas inocentes com suas promessas de felicidade não é Caicul?”, “Elas são diferentes! Vão suportar!”, “Sabe porque estou aqui não é?”, “Sim! Eles ainda  me querem não é mesmo? E mandaram você pra me buscar!”, “ E Quanto as  pobres almas que você molestou o Conselho...”, “...Esquece-se de quem sou?”, “De forma alguma  Imperador dos Sonhos!  Seu poder de moldar os desejos noturnos é insuperável, nem eu tenho tal força! No entanto é isto que esta sendo  questionado”, “Você sempre me avisou não é?”, “Sim! E não sei se você vai comovê-los mais uma vez com a historia da perda prematura de seu filho com a Rainha Amor!”, “Ela ainda não quer me ver não é?”, “Não Caicul! E você ainda busca  compensar com  humanos indefesos o que só Lady Amor pôde te dar ! Incrível, pois você foi o único dentre nosso panteão a conquistá-la e saber o que é o amor verdadeiro e o único a perdê-la de forma tão estúpida”, “Então é você quem vai me julgar agora? Deixe disto!  Vamos logo! Um excército  inteiro de Deuses me aguarda, muitas almas humanas e muitos dos nossos desejam minha execução, mas mesmo que consigam ainda sobrará uma última questão... ...Quem velará pelos sonhos de todos! Quem?... ...Por acaso será você Lady Pesadelo?”     Fim     

Escrito por Edilson Fernandes às 17h39
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08/06/2011


Promoção Dia dos Namorados

Até o dia 4/07/2011 concorra a 4 convites para o HOPI HARI

patrocinados por nós e pela Escala Editorial.

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Parabéns  Joana Rodrigues Pereira  Ganhadora  da promoção do dia dos namorados com a frase!
"Amar é ter alguém como testemunha de nossa vida, é provar que nossa história não passou sem ser notada."

Não deixe de ler o conto  que esta abaixo.

Obrigado pela visita.

Escrito por Edilson Fernandes às 11h02
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Aventura

 

"E Sob a luz da Aurora pereceram nossas esperanças! 

E Sob a luz da Aurora nossas almas foram purgadas!"  

Escrito por Edilson Fernandes às 10h35
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O Rosa da Esperança e o Verde da Morte I

O Rosa da Esperança e o Verde da Morte

Por Edilson Fernandes

 

A mim foi deixado esta incumbência, meus olhos se enchem de lágrimas agora, meu coração  esta estraçalhado e a dura e pesada missão de contar o que vivemos nestes tempos não me abandonará! Não posso ficar lamuriando não tenho o direito. Ele sempre dizia “Há mais motivos sérios para chorar do que aqueles quais choramos agora”.

Hoje compreendo... “Crianças! Por favor, crianças! Precisamos terminar as atividades e...”, “Prôfeeee... olha só lá fora que legal!”, “Jilberlâneo! Será que dá pra mudar seu foco de atenção e nos ajudar a terminarmos nossa tarefa de hoje?”, “É sim Prô! Ta mó legal lá fora”, “E o que seria mó legal lá fora, que não seria mó legal nesta aula  hein dona Maria Eduarda?”, “O céu ta verde Prô...”, “Hein????”.

 Todos foram para janela da sala feito lagartixas no vidro olhando o mais belo fenômeno já visto na natureza, só que não fazíamos idéia de que aquele espetáculo era o prenúncio de uma das maiores catástrofes humanas! Bilhões morreriam a seguir.

 Era a Aurora Austral, plenas cinco da tarde de um inverno em 2025, nossos rostos ficaram esverdeados, nosso sorrisos inocentes e a gritaria nos levaram para fora como sinfonia anunciando a chegada de anjos do paraíso. Acabou a força quase simultaneamente, só que não foi só a força que acabou, os celulares ficaram mudos, nossos notes também, os carros pararam, os tablets pifaram, tudo, tudo que era eletrônico e elétrico parou de funcionar, até as luzes de emergência.

Nas ruas todos estavam agitados, apreensivos e nervosos e a coisa piorou quando a noite caiu, não se tinha nenhuma informação, a polícia rondava a pé pedindo calma, mas eles também estavam visivelmente desorientados, lembro-me de minha mãe procurando fósforos para acender o fogão enquanto eu perguntava “Fósforos? Existe isso ainda?” pois nunca tinha visto ela usar um, toda comida perecível estragou no final do primeiro dia, a força não voltaria e então... então mostramos quem realmente somos. “Fina é a pele da civilidade humana” Ele disse certa vez. Bastaram dois dias para que tudo desmoronasse, de primeiro  todos foram solidários e depois começaram os saques, as gangues, os abusos e assassinatos dos mais hediondos! Sim! Não vieram os anjos, nem o paraíso. Vieram os demônios escondidos em nosso ser vislumbrados pelo verde esmeralda da aurora que cegava todos os corações egoístas deste planeta. Forças como a polícia, o exército ou o corpo de bombeiro perderam o controle logo no terceiro dia e foi quando o céu mudou de cor, do verde esmeralda passou a rosa purpúreo, dava pra sentir na alma  e posso dizer que se não fosse a necessidade como a fome ou a sede ficaria olhando o fenômeno até o fim dos tempos... Foi neste dia... Foi neste dia que  todos os adultos morreram, 6 bilhões de almas  das 7 que caminhavam neste planeta morreram como moscas no decorrer daquele dia, um incontável número de bebês e outros humanos dependentes também pereceram por falta de cuidados, por predação e outras formas horríveis de se morrer. Este horror durou semanas, enterrei todos que pude até cansar, até me acostumar com o cheiro de carne podre e disputar pertences dos mortos com as moscas... ...Até sair vagando por aí sem rumo... Até encontrá-los um por um.

Quem conseguiu sobreviver a tudo isto se juntou em bandos esporádicos de crianças com idades variadas até  cerca de doze anos. Ele disse certa vez “Chamávamos as crianças de anjos e que elas herdariam o paraíso, e agora que elas o têm como poderão viver nele?”.  

Procurávamos comida e água até encontrarmos  um bando de  moleques, eles estavam batendo em nós querendo nossas comidas e pertences, já tínhamos passado por isto outras vezes só que agora os moleques queriam mais, queriam nossas vidas... Queriam nossas carnes. Um deles ergueu a faca para pegar a pequena Júlia, que não chorou por nada, ela olhou bem no fundo dos olhos do agressor e disse “Tá felado, Tá felado!” foi quando Ele pegou a mão do moleque como se fosse um boneco de pano atirando-o contra uma parede, assim tirou a faca que perigosamente ameaçava a vida da pequena  Júlia que há muito não sabia o que era o colo de um adulto, e foi com ela, no braço, que falou para os moleques.

“Monstros egoístas! Não aprenderam nada com tudo que aconteceu? Demônios do inferno porque ainda andam por nosso mundo? Sumam covardes e encontrem seu triste destino longe de nossos caminhos.”, vimos os moleques correrem assustados praguejando como cachorros vira-latas.          

Ainda continuou olhando para nós como desabafando “Se Estamos no paraíso quem abriu o portal do inferno liberando estes monstros? Nossa criança você esta fedendo!”, “Felendo?”, “Não Criança hehehe! Fedendo mesmo! Vem! Vamos procurar algo pra gente se limpar!”. E depois disso dividiu sua comida, buscou abrigo para todos e até nos deu seus chocolates. Éramos quinze crianças, a mais velha era eu com doze e a mais nova era a pequena e ranheta Julia de apenas quatro anos. Na manhã seguinte já pegando suas coisas ele nos aconselhou  enquanto distribuía algumas barras de cereais: “Crianças fiquem distante dos bandos e procurem se limpar uma vez ao dia pelo menos! Lembrem-se que um banho por dia trás saúde e alegria! Boa sorte!”

 Julia chorou pela primeira vez, olhamos uns para os outros e corremos atrás da única pessoa que se importou conosco... ...O único adulto que restou. “Crianças! Não posso assumir a responsabilidade de cuidar de vocês e...” Foi a Julia que disse com um largo sorriso abraçando ele com muita força  “Fica com a gente?”,  acho que foi isto que fez ele mudar de idéia nunca saberemos ao certo. “Esta bem vai! Mas se quiserem ficar comigo devem seguir minhas instruções” e sob o primeiro céu azul em meses com  auroras diárias ele ditou suas regras “Nunca abandonarás seu grupo, Respeitarás  seu igual, serás gentil, não reclamarás, trabalharás incansavelmente para o bem do grupo, serás higiênico,  aprenderás com os mais velhos e ensinarás aos mais novos sempre.”

  Suas palavras foram decoradas e repetidas todos os dias para que não esquecêssemos, precisávamos dele, assim como ele precisava de nós. Estávamos tão seguros que voltamos a brincar entre nós e relaxamos um pouco, até a ranhetinha ficou manhosa. Depois de alguns dias ele nos reuniu e disse, “Precisamos de um lugar definitivo onde possamos recomeçar e eu sei onde ele fica, é lá que encontraremos  o maior dos tesouros perdidos”, “Que tesouros Prô?”, “Aquele que somente os puros de alma podem ver, aquele que só um verdadeiro humano deve usufruir”, ficamos nos olhando com carinhas de ué, porém como não tínhamos nenhum plano nem questionamos e se era um tesouro então né! Que fosse... ...”A viagem vai ser longa!”, “Pra casa Prô?” interrompeu a ranhetinha, “É minha filha! Pra casa! Precisaremos de algumas coisas para a viagem, viajaremos a noite e descansaremos de dia, calculo que a viagem durará cerca de 60 dias, passaremos por locais desconhecidos e perigosos.” Ele nos dividiu em dois grupos, um para juntar comida e água, e outro para buscar ferramentas e agasalhos. Eu fiquei liderando o grupo para juntar comida e ele com o outro. Na preparação nós aplicamos tudo que ele ensinou, aliás, eu não disse, além do básico, no tempo  que ficamos com ele,  nós treinamos lutas, fuga, observação, aproximação furtiva e tudo mais, a Julia ranheta adorava aprender estas coisas ...todos nós adorávamos.

   Ele estava apreensivo durante a viagem, sempre pedia para pedalarmos  em  silêncio, estávamos indo de bike e consegui-las foi uma outra história.

    “A dor é irmã da conquista, o mais fácil é desistir ante a estaca doce do desânimo”,  foi quando o Gú sumiu que ele disse isto, o menino estava chateado depois que ele lhe deu uma bronca por conta de uma vacilada. O que o moleque queria era a atenção dele, mas não daquele jeito, então ele foi embora aí eu fui até Ele  que me respondeu. “Não sou pastor e nem vocês são ovelhas, todavia ainda precisamos dar o benefício da escolha até para a mais conturbada das mentes.  Você fica aqui com as crianças e o Marcelinho vem comigo, se não voltarmos em dois dias sigam para o norte como te ensinei que te alcançaremos em seguida”, O sol estava a pino, auroras verdes e rosas davam sinais aqui e ali, era comum vê-las tais como  tempestades no verão.

    Os dois chegaram a noitinha a uma cidade após haverem rastreado as pistas deixadas por Gú, “Havendo vida há indícios, basta olharmos para os lugares certos e poderemos ouvir seus rastros”. Com cuidado foram se esgueirando procurando evitar os bandos de garotos observando se viam o Gustavinho. “A surpresa é a arma dos melhores predadores”.

     E Então eles o viram sendo levado amarrado e arrastado pelo mesmo bando de moleques canibais que nos atacaram outro dia, eles os seguiram até que entraram numa fábrica  “Mantenha-se calmo ante a tempestade” disse ele ao Marcelinho, já era  noite alta e os dois se aproximaram, Marcelinho se mostrou um ótimo aluno ao aplicar as técnicas dadas por Ele, até que... “Eu sabia que você viria atrás do moleque!”, era o chefe do bando e desta vez ele tinha uma arma na mão conseguida com o Gú, aliás a briga entre  o Gú e Ele era por conta de que o Gú tinha tirado a arma do coldre de um policial morto quando dava umas das suas escapadas. Estas escapadas também entraram na briga “O que esta na sua mão garoto! Serve pra mostrar com os seus próprios dedos,  o erro de quem a aponta”.  Assim a arma  apontada  pra cabeça dele tinha vindo do Gú!

 Foram amarrados e pendurados sobre uma baia com um cão pitbull faminto latindo sem parar logo abaixo deles. A voz afeminada do chefe do bando ecoou, “ Tá vendo o cão? Ele não come há três dias e vamos alimentá-lo. Não se preocupe, não vou comer você é que não quero me contaminar com seu sangue ruim, Sr Adulto! Porque se você não morreu  deve ser por causa de seu sangue ruim e minha mãe sempre falava que coisa ruim num morre”, Ele ficou olhando sem nada falar e os outros seguiram seu exemplo “Fique quieto e terá uma chance de sobreviver”, e o líder continuou “Estamos seguindo vocês a dias, viu as bikes lá fora? Pois é! Estávamos indo bem até que este enxerido aí nos achou e o resto vocês já sabem! Quero saber para onde estão indo? E Não minta porque o moleque disse que vocês vão atrás de um tesouro?! Papo reto vai!”, “O tesouro? É o tesouro do homem, é para quem pode ouvi-lo, para quem pode vê-lo, para quem pode cheirá-lo, é para quem pode senti-lo e trabalhá-lo,  seguramente não é para vocês”. Ninguém sabia mais detalhes, só ele, assim o lider canibal foi abaixando a corda dele exigindo a resposta, o cão ladrava e ladrava, até que a corda se soltou e o Prô caiu dentro da baia, os moleques do bando foram até a borda e a cena que todos viram foi espetacular, Ele segurava com as duas mãos livres o pescoço do cachorro que ficou deitado no chão por algum tempo, depois ele pegou o pitbull e o jogou para cima do líder, que deixou cair arma no chão pois ficou tão ofuscado com a cena que esqueceu de usá-la, o cão saiu correndo atrás dele e de outros garotos do bando que fugiram feito galinhas, em seguida subiu e libertou os dois, o Gustavinho e o Marcelinho. Foram para a saída, mas não antes dele entregar a arma para o Gú e dizer “Entende agora?”, Gú só olhou de volta e acenou positivamente, se aproximou de um riacho e jogou a arma lá.

Ouviam os latidos agressivos e correram até chegar ao cão faminto prestes a atacar, o líder que se amontoou num canto gritava como louco, foi o assovio trinado dele que fez o cão parar, ele se abaixou estendeu a mão e ofereceu comida para o animal, “Aprendei demônio sem coração, a covardia é tua mãe, o medo o teu pai e ambos serão tua ruína.”, viraram as costas e saíram voltando para nós. Marcelinho perguntou, “Porque não o matamos Prô?”, “Porque os mataríamos?”, “Eles ainda podem nos seguir!” disse Gú, “Sim! Mas vocês não acham que já tivemos mortes demais ultimamente? Vem! Vamos embora, a jornada ainda é longa!”. Muitas perguntas vieram pelo caminho, como ele conseguiu se livrar? Como ele domou o cachorro, que agora os acompanhavam? A resposta foi apenas um sorriso de canto de boca e o silêncio.

 

Escrito por Edilson Fernandes às 10h16
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O Rosa da Esperança e o Verde da Morte II

Epílogo -

A Aurora austral brilhava forte de novo, sabíamos por conta da tonalidade que mudava de verde esmeralda para um rosa púrpura intenso, foi quando eu caí doente. Não fazia idéia do que eu tinha, a Julia se destacou por tentar me dar todo tipo de remédio que ela lembrava o nome, chorou e adormeceu ao meu lado com medo de que eu pudesse morrer...  Eu estava com muito medo também. “O Prô vai chegar e ele vai te salvar!” dizia ela acariciando meus cabelos, todos faziam o que podiam,  foi quando eu me dei conta... meu aniversário foi no dia que eles foram atrás do Gú! Eu não falei nada pra ninguém, mas estava condenada, no  dia seguinte tive a segunda menstruação da minha vida desde a menarca,   tentava me controlar no entanto a dor era tremenda, eu me dei conta que me tornei adulta. A certa altura de meu sofrimento pensei que seria melhor assim, o mundo seria melhor sem adultos, o mundo seria melhor sem mim então segurei a dor e esperei a morte me convidar para dançar uma última música... pois é! Há quanto tempo eu não ouço uma música, de repente a Julia renheta começou a cantar pra mim, “Boi! Boi! Boi! Boi da cala pleta! Pega esta doença que te medo de caleta! Ela me fez sorrir e fez a todos em volta também. Neste exato momento eles chegaram e quase sem fôlego todos agarram-no pedindo que me ajudasse. Obvio que quase mataram o Gú, mas isto é detalhe!

“Você já é adulta não é?”, “Acho que sim”, “Tá dando pra ver... e sentir! Num falei pra vocês tomarem banho frequentemente?”, “Mas é que ficamos cuidando dela!” disse a Julia abraçando Ele, “Jú! Me faz um favor filhota! Vão tomar um bom banho, por amor a Deus tá! Enquanto isto eu cuido dela!”, “Todos entenderam a mensagem e saíram atrás de água para se banharem, era seguro ali, sem bandos ou gangues então ele se voltou para mim. “Você podia ter pedido para eles tomarem banho pelo menos né!”, “Não sei se você percebeu mas eu estou tentando sobreviver aqui!”, “Humpf!”, “Eu sei o que você esta pensando, já sou adulta e houve uma tempestade cor de rosa, estou para mor...”, “...Fique quieta, você vai ficar boa, eu prometo” , foi aí que eu mostrei a enorme ferida em minhas costas , o primeiro sinal que nada ia bem. “Criançada juntem tudo vamos partir! Gú , Marcelinho! Façam uma carroça com as bicicletas e coloquem ela nela, teremos que pedalar rápido! Júlia você vem na minha bike, temos pouco tempo!”. Ninguém  questionou ou falou alguma coisa, em pouco tempo estávamos na estrada de asfalto, coisa que ele sempre evitava, pedalávamos muito rápido. Chegamos no portal de uma cidade  e ele parou, nos acomodou deu instruções para montarmos acampamento em um lugar seguro e aguardar, pegou o Gú, o Má, o Jarrão e  o Zion, recém e faminto cachorro cujo nome fora dado por mim. Seguimos para a cidade.

O Tom negro na  noite só era quebrado pela sinfonia verde da aurora, era costume dos bandos ficarem a espreita de crianças desavisadas para serem atacadas, “Pedalem como nunca pedalaram na vida, pedalem pela vida dela! Vamos!” e os meninos pedalaram , para o Zion  aquilo era uma festa uma conquista de novos territórios, quando ele sentia algum perigo atacava sem dó, pelas minhas contas foram dois ou três bandos de moleques que tivemos de enfrentar para abrir caminho.  Nunca ele tinha autorizado usar lanternas de velas fora de um perímetro seguro, ele se arriscou muito, mas não tínhamos tempo. “Jarrão! Pegue o Zion e tranque todas as portas e entradas o máximo possível! Marcelinho! guarde o hospital a partir do teto, como treinamos, Gú! Vem comigo!”. Foram ordens claras e precisas que vieram, o Gú não questionava como de costume, sabia  que de tudo aquilo dependia  minha vida.

Luzes de vela e archotes iluminavam como farol o hospital, ele tinha  tentado de tudo , até achou um kit de cirurgia, que logo jogou fora, nenhum remédio havia ali. Sentou um tempo ao meu lado segurando minha mão sem nada falar, era como ele ficava quando não tinha as respostas para as coisas,  “Não se preocupe eu vou ficar bem!”, “Vai sim querida... vai sim!”, Vi seus olhos marejarem quando a luz das velas cintilaram nas lágrimas. “Prô! Tá cheio de gangues lá fora e a Aurora tá ficando rosa de novo”, “Brigado cara! Pegue o Jarrão e o Zion e tente impedir a entrada deles o máximo que puder”, “Já è!”. Eu Tentei amenizar as coisas, “Sabe Prô! Mesmo não sendo de meu sangue você é como um pai para mim, quero lhe agradecer por isso!”, “O que disse?” , “Você é como um pai para mim!”, “Não! A história do sangue, como não pensei nisto?”, Ele saiu e logo voltou com um kit de exame de sangue, tirou um pouco do meu e depois tirou o dele para em seguida fazer um teste e por sorte ele era O  e eu AB, em seguida pegou uma seringa e tirou um pouco do seu sangue e o colocou em mim. Enquanto isto acontecia os meninos batalhavam com muitos outros que tentavam entrar no hospital. “O que importa é qualidade do ataque e não quantidade de atacantes”.

A aurora estava rosa, Ele esta suando e cheio de sangue quando acordei, os meninos olharam para mim e sorriram dizendo, acabou! Ao meu lado estava Zion, deitado na maca comigo, “O cachorro trabalhou muito, ele merece descansar! Você esta bem? Nos deu um grande susto sabia?”, Ninguém nunca me falou o que houve, perguntei a Gú e ele respondeu “Você não vai querer saber! Deixe tudo como esta,  esta salva agora e isto é o que importa”, o guri sorriu pra mim e acenou para que eu pudesse descansar, não quis entender quando Ele disse “Nunca caminhe por um pântano com calças brancas, você vai se sujar!”

Não sei o porquê, mas a  transfusão de sangue me fez sentir melhor, deu certo e é o que basta!

Aos poucos fui me recuperando, voltei a pedalar e acompanhar o grupo, junto comigo  Zion foi ficando mais forte e mais bonito.

Por dias pedalamos, estávamos exaustos, mas determinados, Julia era a mais forte neste quesito “Vamos! Vamos!”, dizia sempre.

A aurora estava muito intensa e mais rosa que o normal naquele dia, chegava a quase vermelho, era lindo embora fatal aos adultos ou aos que estivessem chegando nesta fase. Fui abençoada por Ele, seu sangue agora era meu e isto me salvara, isto poderá salvar os outros também, “Devemos estudar com afinco o que nos é desconhecido”.

 Há dias tínhamos nos afastado das rotas das cidades, atravessamos matas e campos abertos, paramos para descansar, era madrugada e estava toda iluminada como disse á pouco, ele seguiu até o alto de um morro e ficou lá por algumas horas, sua sombra se confundia com as luzes noturnas e um monumento aos nossos olhos se fez naquela hora.  “Tá chamando a gente vamos lá ver!”, subimos correndo e nos deparamos com um vale todo gramado, árvores verdes e cheias de frutos balançavam ao vento matinal, um riacho cruzava o meio do vale, algumas vacas e cavalos pastavam aqui e ali, um  lago sustentava uma bruma branca como algodão,  havia o cheiro de orvalho e os pássaros cantavam e pela primeira vez em meses ele sorriu, Julia de mãos com ele disse “Chegamos?”, “Chegamos minha filha! Chegamos! Este é nosso tesouro, pena que temos demônios a exorcizar.”,  ele olhou para trás ao mesmo tempo que zion se colocou em guarda e gritou para as árvores  “Podem sair de seus esconderijos moleques serpentes! Sei que nos espreitam esperando para dar o bote final”, gelamos de medo, entretanto ficamos em formação de combate sabíamos que era nosso último confronto, o moleque líder do grupo se adiantou do bando desordenado e falou,  “Então é aqui que se esconde o tal tesouro e ele será dos herdeiros da terra... Nós!”, “Ele é nosso seu bobão!” remendou a ranhetinha atrevida, “Vocês não aprenderam ainda, e não aprenderão, poderíamos juntos usá-lo, mas seu egoísmo e sua forma equivocada de ver a vida nos forçará ao confronto.”, “Aí tiozão! Nós vimos do quê vocês são capazes de fazer lá na cidade e desta vez estamos preparados, vocês não são mais humanos do que nós então obrigado por nos deixar limpar a sujeira!”, “Abutres sem alma, como ousam...”, os moleques  gritaram e vieram pra cima, eles portavam lanças, Zion atacou com muita ferocidade defendendo a Julia que surpreendia por sua coragem e valentia apesar da pouquíssima idade, eles eram superiores em número e não tinham muita variação de idade. Nós tínhamos sido bem treinados, naquela manhã o céu ficou vermelho e a terra daquela mata também e para nossa surpresa em determinado momento o garoto líder do bando e todos os outros caíram como moscas se contorcendo de dor, eu também passei mal, mas estava bem e agora entendia o porque que Ele disse para não os matarmos,  apenas  imobilizá-los. Estavam condenados como eu estive outro dia. “Recuem crianças, não somos como eles, não chutamos cachorro morto!”. Todos nós, inclusive Zion, voltamos sem nenhuma baixa, só machucados e com arranhões,  ao ver que estávamos bem se agachou junto ao líder e disse “Até demônios como vocês devem ter uma chance! Posso salvá-los e...”, “Vai se ferrar seu adulto de merda, cala boca a gente sabe se virar, ou você acha que comemos carne humana porquê, e se preparem pois quando melhorarmos você serão nossas próximas refeições...!”,” Há dias vocês não comem carne fresca não? Agora estão longe das cidades, longe das crianças desavisadas, hoje a aurora esta no auge de novo  e sua morte será certa”, dito isto olhou para nós e continuou “Crianças! Separem aqueles que quiserem ajuda e deixem os outros a sua própria sorte, só podemos ajudar quem quer ser ajudado!”, ninguém aceitou nossa ajuda... e de verdade? Não nos esforçamos como ele, e assim os nojentos moleques canibais morreram sem que nenhum remorso nos abatesse! Então os enterramos. 

O céu ficou azul de anil, sem nenhuma nuvem, seus raios brincavam pelas copas das árvores das quais colhíamos seus frutos doces, “Vamos acampar aqui?” perguntou Gustavo, “Não meu garoto não será necessário!”, Ele saiu correndo direto para uma mata no sopé de uma colina do lado oposto do vale, corremos atrás dele como patinhos seguindo a mãe e lá entre árvores e arbustos havia uma estrada de terra,  no fim dela uma cerca antecedia uma enorme porta encravada numa rocha toda escarpada, podíamos ver que estava intocada neste tempo todo, um vigia adulto estava morto há meses caído na guarita, pude ver uma placa onde estava escrito “EMBRAPA - Banco de Sementes - Abrigo 73”. Ele empurrou o portão, abriu a porta e disse “Venham temos que cultivar nosso tesouro!”, nos olhamos, sorrimos e recomeçamos a viver, faremos outro futuro, ainda bem que ele esta conosco o único adulto que sobrou, o último professor do mundo.   FIM...    ...Ou Começo?                                     

 

 

                

 

                                    

                     

Escrito por Edilson Fernandes às 10h11
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25/05/2011


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Escrito por Edilson Fernandes às 08h47
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25/04/2011


Romance

 

Não sei porque, mas ao terminar de escrever este conto tive que fazer uma omelete e tomar um vinho branco,

quem sabe você não sinta a mesma necessidade.

Escrito por Edilson Fernandes às 18h18
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Omelete com Vinho Branco

Omelete com Vinho Branco.

Por

Edilson F.P. Silva


Meu primeiro trabalho foi com a Dona Márcia, a vizinha de frente de casa. Em meio a gritaria socos e pontapés separamos os dois, o marido dela a deixou com muitos hematomas e por cinco vezes mais nós intercederíamos até ela fazer o primeiro boletim de ocorrência por agressão,  estupro e ameaça de morte “Vagabunda! Você não perde por esperar!” disse o homem de 38 anos dono de uma rede de depósitos da cidade.

            Toda vez que socorríamos Dona Márcia, minha tia  olhava pra mim com os olhos chispando de raiva, mas  no final da daquela noite, como quem tomasse coragem a cada agressão, me  disse , “Você tem que fazer alguma coisa! Pela memória de tua mãe e seus irmãos, pelas mulheres que passam a mesma  coisa que ela, ou vai deixar a pobre da Dona Márcia morrer nas mãos  deste homem.

            Meu coração saltou a boca, chorei igual criança, como se  não o  fosse com meus tenros dezesseis anos. No sofrimento daquela pobre senhora me vi na infância  remota.  Gritaria! Meus dois irmãos mais novos caídos no canto do quarto, minha irmã mais velha estava na cama, imóvel, sem roupas e um buraco na testa,  minha mãe estava  igualmente estendida no chão. Todos cantavam a sinfonia silenciosa da morte. Olhei para trás e vi o  olhar dele, frio, sarcástico, depois... a escuridão. Foi uma semana em coma segundo minha tia. O assassino de minha família,  quem um dia chamei de pai, foi solto cinco anos depois por bom comportamento e blá blá blá! Você conhece a lei não? Então nesta época eu tinha somente dez anos.

            “Coitado do pai! Mãe! A senhora tambem tinha que...”. Olhamos perplexos para os filhos de Dona Márcia que, apesar de tudo, davam razão para o pai e ela,  como toda mulher, deu mais uma “chance” a ele. Meu Deus! Quantas vezes eu veria a mesma cena. Neste ponto minha tia olhou pra mim e disse “Você sabe o que vai acontecer não é?”.

             Ele passou a chegar em casa uma ou duas horas da manhã . Hãha! Gandaia, balada “Me deixa ser feliz sua Vagabunda! Tô cansado das suas lamúrias". Os filhos, todos adultos e casados faziam coro, inclusive a caçula que sempre dizia, “Mãe! Deixa! Ele é homem! Homem é assim mesmo, a senhora sempre me disse isto, o importante é que ele sempre volta pra casa e mantém nossos negócios, nosso padrão de vida. Hu! Gente parasita! Mercenários!

            Eu estava de branco no enterro dele com uma camiseta de estampa de caveira negra, “Latrocínio!”( roubo seguido de morte) era a hipótese da polícia. Dona Márcia escondia um sorriso de Monalisa por debaixo do véu negro,”Deus existe! Deus existe!”. Confidenciou mais tarde para minha tia. “Onde você estava quando o marido da Dona Márcia morreu?”, “A senhora sabe tia! A Senhora sabe!”, “Meu bebê esta se tornando  um homem de verdade”, falou orgulhosa com lágrimas nos olhos.

            Viajei pelo país, ganhei o mundo e sempre que me deparava com situação parecida eu dava um jeito. Justiça? Haha! Ricos ou pobres, advogados ou pedreiros, não importa, estes tipos de  homens formam uma confraria e se escondem debaixo da covardia de seu egoísmo animal e materialista, quer achar homens assim? Olhe para quem dorme com você!

             O serviço que me deu mais prazer foi quando eu passava uma  temporada num apartamento da COHAB, eu estava quase para mudar, “Voltar para Alphaville seria uma boa pedida, faz tempo que não fisgo um tubarão”,  pensava eu e então ouço! “Cala a boca moleque senão mato todo mundo aqui ouviu?”, aquilo me gelou o coração, no silêncio da madrugada as batidas constantes e ritmadas da borda da cama na parede denunciavam o ato. Acendi a luz de meu quarto e  liguei o toca cd no último volume. Não queria espantar a presa, mas também queria salvar a pobre criança. “ABAIXA ESTA M&#$A DE SOM AÍ Ô! NUM TÁ VENDO HORA?”. Estranho que o primeiro, de muitos, a gritar foi ele, sem camisa, da janela de seu apartamento  logo acima do meu. Como nunca percebi nada? Talvez por conta de minhas caçadas noturnas, acho que foi isto!

 Safado!

  A Esposa era policial e dava plantão numa base militar próxima, o casal de filhos contavam com oito anos o  mais novo e dezesseis a mais velha, que depois vim constatar que ele a pegava quando era mais nova substituído-a mais tarde pelo filho.

  Como sei de tudo isto? Meu trabalho exige investigação, detalhamento, precisão e frieza, é só que posso te dizer por hora!...Não! Não é só isto! É que outrora matei um inocente por pura simples discriminação, mas isto é outra história.

24x48 era o turno da mãe policial, 24x48 era o inferno do moleque, 24x48 era a fuga da menina que bloqueou sua infância em algum lugar da mente, não a culpo. O fato é que consegui fazer, malandramente, que a sogra, a quem ele odiava por sempre desconfiar dele,  viesse passar uns dias com eles e ao fazer isto expulsei o crápula da casa. Não! Ele não trabalhava! Só “cuidava” das crianças, “Somos um casal moderno”  disse ele no “Interrogatório”.  Ditei uma carta para ele escrever, uma confissão na verdade, o marmanjo chorava, pedia a Deus e tudo mais! “Deus Perdoa meu filho”, disse eu sadicamente, “Eu não!”. Brinquei com ele cinco dias seguidos, não posso dizer o que fiz, foi atroz demais, deliciosamente atroz demais. Mas só para você não ficar curioso o fim dele foi num chiqueiro com cinco porcos que não comiam há cinco dias, não sobrou nada! Hã? O que? Não sou o mocinho não ô! Na verdade nestes quarenta e seis anos de vida, e morte, o que menos me considero é ser um herói.  Ouvi a esposa dele dizer “Se ele aparecer na minha frente eu mato”. Não vai precisar! Hehe!

O sol se põe no horizonte, o cheiro da cebolinha perfuma o ar enquanto refogo o bacon para fazer uma omelete com queijo, da bancada que dá para a varanda agradeço a Deus pelo dia e pela vida que eu levo. Falei com minha velha tia, ela ainda sente falta do Tio João, vou passar o feriado com ela, a mãe que eu não tive. “Seu pai esteve aqui! Esta muito velho e doente! Quer falar com você!”. Até agora estou mudo, sem pensar, sem perguntar, desliguei o telefone como se nada tivesse acontecido, depois de todos estes anos  meu pior fantasma voltou, na verdade nunca tive medo de fantasmas, eles só existem porque nós permitimos. E você? Adivinha o que ele quer? Talvez o perdão? É! Pode ser ,mas o fato é que antes que a omelete esfrie estarei de volta.

  Não Lembrava mais da cara dele! Só dos olhos frios e sarcásticos, não estou ansioso e nem furioso. Ele fala eu  ouço, mas não escuto, eu o olho, mas não o vejo. O cheiro de “Aqua vérva”(Aqua Velva), antigo perfume de barbearia de quinta categoria, ainda era sua marca registrada, Ele toma uns goles de café, me olha com mais cuidado e dispara “Somos iguais, uma fruta nunca cai muito longe da sua árvore!”, sorriu e caiu com a cara na mesa, o veneno  age rápido , levantei e pedi, calmamente, para a garçonete chamar a ambulância  que esperei chegar, observando num canto qualquer a movimentação das pessoas que demonstravam pena e solidariedade aquele velhinho de 70 anos que passara mal naquele lugar. “Meu pai acabou de morrer Tia!”, “Meu bebê agora é um homem de verdade” falou  orgulhosa. Quando cheguei em casa a omelete ainda estava morna, coloquei-a no microondas peguei uma taça com vinho branco, sentei na varanda e  comecei a contar as primeiras estrelas daquele crepúsculo de céu púrpura rosa. Humm! A omelete de queijo e cebolinha esta deliciosa.  

Fim.

Escrito por Edilson Fernandes às 16h03
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BRASIL, Sudeste, CARAPICUIBA, CONJUNTO HABITACIONAL PRESIDENTE CASTELO BRANCO, Homem, de 36 a 45 anos, Portuguese, English, Cinema e vídeo, Automóveis, Trabalho

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